Participei de uma mesa interessante hoje de manhã, na Campus Party. Falei sobre inovação na TV digital sob a ótima do telespectador. Marcelo Zuffo falou sobre as experiências com TV 3D, realidade virtual e Ultra High Definition, projetos desenvolvidos na USP e avaliou a implantação da TV digital no Brasil. Para fechar, Marco Antonio Pellegrini, da Secretaria de Estado dos direitos da Pessoa com Deficiência do Governo do Estado de São Paulo, discorreu sobre as necessidades de acessibilidade nas mídias digitais e sobre um projeto recentemente assinado com a USP para o desenvolvimento de um set top box acessível.

Chamou particular atenção o argumento do professor Marcelo Zuffo, avaliando as aplicações interativas que estão no ar em São Paulo: “Essa primeira geração de interatividade demonstra uma grande crise de comunicação que as emissoras de TV estão enfrentando com o público”. A primeira vista, esse raciocínio parece paradoxal, uma vez que a essência da TV é comunicar.

No entanto, se repararmos nas recentes iniciativas de uso de redes sociais e novas ferramentas de comunicação na programação das emissoras, essa crise fica patente. Até pouco tempo, as TVs ditavam tendências e faziam a moda. Hoje, com a convergência tecnológica, as emissoras de TV estão longe do desenvolvimento das novas tecnologias e dos novos serviços de comunicação. Em vez de ditar as tendências, estão correndo contra o tempo perdido, buscando entender comportamentos e anseios da população mais jovem, que simplesmente troca a TV pela internet.

Vale a pena reparar na matéria da Folha de São Paulo de hoje, coluna Outro Canal:

41% dos teens veem TV fora do televisor
O “boom” de celulares, iPods e sites como o YouTube entre crianças e adolescentes impulsiona uma mudança no modo como esse público vê TV: eles consomem mais conteúdo produzido para a televisão, mas ficam menos diante do televisor.
Apesar de o conteúdo de televisão ser o mais consumido dentre as opções de entretenimento (são 4h29 diários, 38 minutos a mais do que em 1999), pela primeira vez na década o tempo diante do televisor caiu: são 25 minutos a menos em dez anos (3h04 em 2009 contra 2h39 em 1999).
Um dos motivos é o fato de os aparelhos portáteis gerarem mais oportunidades para que eles usem diferentes mídias: 20% do consumo total (2h07) acontece em celulares, iPods e vídeo games portáteis.
Os dados são de pesquisa feita pela Kaiser Family Foundation em colaboração com a Universidade Stanford, com 2.000 americanos entre 8 e 18 anos. Segundo o estudo, 59% deles assistem aos programas de TV do jeito “clássico”, ou seja, no televisor no horário em que são transmitidos, e 41% usam também outros aparelhos para ver o conteúdo televisivo.
E, mesmo quando estão diante do televisor, cerca de 47% conversam pela internet e por torpedos de celular sobre a programação ou pesquisam na internet algo relacionado a ela. Crianças e adolescentes passam 7h38 por dia consumindo conteúdo de entretenimento, como música, computador, leitura, video game, DVD e televisão. Mas, como costumam consumir mais de um conteúdo ao mesmo tempo (como ver TV e ouvir música simultaneamente), são expostos a 10h45 de produtos de entretenimento por dia.
Os dados podem adiantar uma tendência de mudanças também no Brasil. “A infância é a faixa que mais consome internet no Brasil, mas é preciso ter em mente que há uma relação direta com o custo dos serviços”, diz Fábio Senne, coordenador de relações acadêmicas da Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância).
O resultado reforça a necessidade de se medir audiência por conteúdos e não por TVs.

Resumindo: o mundo está em pleno processo de mudança, mas os executivos das emissoras ainda não conseguiram vislumbrar caminhos que encaixem as TVs nesse novo cenário.