Fazia tempo que eu não assistia a programação da TV aberta brasileira. Por vários motivos, que englobam desde falta de tempo a critérios qualitativos de programação. Aproveitando o ócio da última semana, entre um livro e outro sobre audiência e o futuro da televisão, fiquei várias horas zapeando entre as grades das TV abertas. Um desapontamento atrás do outro.

    Primeiro, as séries americanas que estão fazendo sucessos no SBT e Record estão muito atrasadas. Enquanto a TV fechada busca ganhar terreno contra a pirataria e download ilegais das séries, diminuindo as janelas de exibição para apenas uma semana em alguns casos, a TV aberta não tem vergonha de reprisar series três ou quatro anos depois de terem ido ao ar na TV fechada. É muito tempo, mesmo considerando a dinâmica do mercado televisivo, que deixa a TV aberta em último lugar na janela de exibição.

    Outra coisa que chamou muito a atenção foi a mudança de foco da TV Record. Antes copiando a Globo, a emissora agora copia o SBT, que está ganhando terreno e ameaçando o segundo lugar no Ibope do canal do Edir Macedo. Ano passado o foco da Record era a telenovela, com produções muito interessantes que beiravam os 20 pontos no Ibope. Essas novelas desapareceram, cedendo lugar para reprises de séries americanas no horário nobre. Essa tática deu certo no SBT, que está em segundo lugar no Ibope do horário nobre capitaneado por Supernatural. Hoje estreia Gossip Girl. Reação da Record? Ao invés de apostar em produções de qualidade e adequadas ao público nacional, estreia no mesmo horário CSI. Todas as séries são excelentes, com ótimas audiências nos EUA. CSI luta pelas maiores audiências com House, Two and a Half Man e outras. Mas colocar essas séries em horário nobre no Brasil me parece ser um tiro no pé a médio e longo prazos. A tendência é do número de TVs desligadas aumentar…

    Aumentar porque nem a TV Globo está conseguindo manter a hegemonia da audiência. Com quedas constantes no Ibope, o famoso padrão Globo de qualidade aparentemente foi aposentado. A única coisa que sobrou do guia desenvolvido na década de 1970 e que serviu de modelo para as demais emissoras foi a grade engessada, com sequências imutáveis na programação. Só isso, porque os horários e as identidades visuais deram lugar ao desespero pela busca de uma audiência que não aceita mais a programação antiquada oferecida. Alguém ainda sabe que horas começa o Jornal Nacional? O BBB? Ou o Jornal da Globo? O que era comum no SBT, que há tempos não mantem grade, está acontecendo na Globo, que diminui ou estica a programação com critérios incompreensíveis para os telespectadores.

    Já a identidade visual desapareceu completamente de algumas atrações. Deu até pena ver o Fantástico de ontem: a cada quadro diferente, outra tipologia, outros formatos de vinheta e outro estilo de apresentação. Há pelo menos quatro programas diferentes dentro do Fantástico. Não há mais uma identidade de revista eletrônica, que encadeia toda programação. Não é por nada que bate consecutivos recordes negativos de audiência.

    Resumindo, não é difícil explicar a queda da audiência da TV aberta. Se somarmos os problemas acima a uma maior oferta de tecnologias de entretenimento fora da TV, podemos ter algumas ideias que justifiquem a apreensão presente em todo mercado audiovisual. A TV está perdendo a majestade, mas para a publicidade um novo reinado ainda está longe. Enquanto isso, as novas tecnologias de comunicação agradecem e ganham espaço.