Há exatos dois anos, o presidente Lula inaugurava com grande festa as transmissões digitais em São Paulo. Havia uma expectativa gigantesca de que a TV digital iria acabar com todos os problemas do Brasil. Na época, pouca gente mencionou que tratava-se de uma tecnologia como qualquer outra, com processo de amadurecimento, atualização e tempo de penetração. A alta definição representava na época o ápice da digitalização da TV.

Depois desses dois anos e muitas críticas, os questionamentos diminuíram consideravelmente. Comprado com outras tecnologias, como DVD, celular, blu ray, as vendas de receptores digitais estão muito mais aceleradas. Há críticas afirmando que as mesmas são ainda baixas se considerarmos o tamanho potencial do mercado.

Além disso, fala-se hoje que o problema está na divulgação, que as pessoas não sabem o que é TV digital e que sem a interatividade a adoção vai demorar uma infinidade. Será mesmo?

Certamente, a TV digital ainda tem inúmeros problemas para serem resolvidos. A recepção interna continua deficitária. Na maioria dos lugares, funciona bem apenas com antena externa, o que demanda uma necessidade de mudança cultural e pode atrapalhar casas e apartamentos sem cabeamento adequado. No entanto, os maiores desafios estão na venda e no conteúdo, ambos ainda muito aquém da tecnologia.

Para chegar a essa conclusão, tirei umas horas, ontem a tarde e hoje de manhã, para visitar seis pontos de venda de produtos eletroeletrônicos em São Paulo, quatro na Zona Sul (Extra, duas lojas do Carrefour e Magazine Luiza) e dois na Avenida Paulista (Fnac e Fast). Buscando mapear o preparo dos vendedores, elaborei algumas perguntas básicas que qualquer pessoa sem domínio tecnológica da televisão faria: 1. para alta definição, é melhor comprar uma TV de plasma ou LCD (quero 42 polegadas)? 2. é melhor um receptor integrado ou separado? 3. Preciso de antena? 4. O sinal pega em toda cidade de São Paulo? 5. Posso descartar meu receptor de TV por assinatura? Outras questões iam sendo incluídas conforme as conversas. Além disso, em todas as lojas pedi para ver um comparativo entre imagem analógica e TV de alta definição.

Em nenhuma loja esse comparativo pode ser feito. Nenhuma loja tinha TV sintonizada em conteúdos abertos de alta definição; três tinham sinal analógico sintonizado por TV HD. Saí de todas as lojas sabendo que o blu ray é maravilhoso (foi usado em todas as lojas como referencia de conteúdos HD), mas sem ter visto uma única imagem em alta definição da TV aberta. Nos horários que visitei as lojas, a maioria dos canais não transmitia conteúdo em alta definição. Em três lugares (Fnac, Fast e Extra) os vendedores explicaram que as emissoras alternam programas HD e SD. Nas duas lojas do Carrefour os vendedores garantiram que os desenhos animados eram em HD (em uma loja “Três espiãs demais”e na outra não consegui reconhecer o desenho). Na Magazine Luiza a vendedora deu uma resposta tão confusa que não consegui acompanhar o raciocínio dela. Pode até ter respondido corretamente…

Apenas na Fnac todas as questões foram respondidas corretamente. A loja ainda ofereceu a possibilidade de devolução do produto caso na minha residência não tivesse recepção digital.

Na Fast a maioria das questões foi bem respondida, tirando a recepção do sinal. O vendedor garantiu que com antena externa seria possível captar todos os canais abertos em qualquer lugar da cidade. No entanto, é preciso ressaltar que o mesmo vendedor deu uma aula sobre as diferenças de LCD e plasma. Ainda explicou porque o LED está substituindo as duas, e obviamente, ofereceu uma TV de LED, muito mais cara.

Nas demais lojas, um desastre total. Além de confundir HD e SD, os vendedores desconheciam as diferenças entre receptores embutidos e separados, recepção do sinal e necessidade da antena. Em três lojas as diferenças entre LCD e plasma se resumiam a preço. Na Magazine Luiza, a vendedora disse que eu poderia cancelar a assinatura da TV a cabo, pois a TV aberta em alta definição é muito melhor (como se fosse possível fazer esse comparativo…).

Em nenhuma visita perguntei sobre interatividade, já antevendo problemas nas respostas. Nenhum vendedor tomou a iniciativa de explicar que mesmo a recepção SD é muito melhor do que o sinal analógico e que TV digital não se resume à alta definição.

Por esta experiência, pode-se perceber que o problema da TV digital está longe de ser apenas divulgação. Os pontos de venda estão despreparados para atender os consumidores e falta conteúdo em alta definição. Como convencer um comprador a adquirir um receptor digital se não há conteúdo para ser mostrado? A alta definição está muito restrita ao horário nobre. De manhã e a tarde são raros os programas em HD, e os que tem possuem sérios problemas de produção, com poucas exceções.

O mínimo que eu esperava de qualquer loja desse porte é um stand com pelo menos quatro tipos de recepção: analógica com TV CRT, digital HD, digital com TV CRT e qualquer coisa usando TV por assinatura digital. Assim, o consumidor poderia ter clareza e certeza sobre o que está comprando. Mas nada que chegue perto na cidade de São Paulo. Se eu estiver enganado, por favor, me dêem o endereço desse lugar…

Fico me perguntando se realmente vale a pena fazer, neste momento, uma grande campanha de divulgação. O primeiro entrave seria o despreparo dos vendedores. E segundo, como mostrar as diferenças e as melhorias da imagem, se os programas da manhã e da tarde são majoritariamente em SD? Isso falando de São Paulo, onde todos os canais estão pelo menos transmitindo digital. Das 26 cidades que tem sinal digital, a maioria está restrita a dois ou três canais. Nesses casos, os conteúdos em alta definição são ainda mais restritos. Nesse caso, como causar a boa impressão da qualidade da imagem?

O mesmo risco há com o lançamento da interatividade. Além da divulgação adequada, será necessária uma força tarefa para termos conteúdos bons e interessantes no ar, que agreguem valor à programação tradicional. Caso contrário, será muito difícil convencer alguém a comprar um receptor mais caro, que acrescenta pouco à televisão dele. Simplesmente colocar interatividade no ar, sem preocupação com qualidade e quantidade, não será a solução, pelo contrário.