Qua 2 Dez 2009
Os problemas da TV digital estão no conteúdo e pontos de venda
Publicado por Valdecir Becker sob InformaçãoHá exatos dois anos, o presidente Lula inaugurava com grande festa as transmissões digitais em São Paulo. Havia uma expectativa gigantesca de que a TV digital iria acabar com todos os problemas do Brasil. Na época, pouca gente mencionou que tratava-se de uma tecnologia como qualquer outra, com processo de amadurecimento, atualização e tempo de penetração. A alta definição representava na época o ápice da digitalização da TV.
Depois desses dois anos e muitas críticas, os questionamentos diminuíram consideravelmente. Comprado com outras tecnologias, como DVD, celular, blu ray, as vendas de receptores digitais estão muito mais aceleradas. Há críticas afirmando que as mesmas são ainda baixas se considerarmos o tamanho potencial do mercado.
Além disso, fala-se hoje que o problema está na divulgação, que as pessoas não sabem o que é TV digital e que sem a interatividade a adoção vai demorar uma infinidade. Será mesmo?
Certamente, a TV digital ainda tem inúmeros problemas para serem resolvidos. A recepção interna continua deficitária. Na maioria dos lugares, funciona bem apenas com antena externa, o que demanda uma necessidade de mudança cultural e pode atrapalhar casas e apartamentos sem cabeamento adequado. No entanto, os maiores desafios estão na venda e no conteúdo, ambos ainda muito aquém da tecnologia.
Para chegar a essa conclusão, tirei umas horas, ontem a tarde e hoje de manhã, para visitar seis pontos de venda de produtos eletroeletrônicos em São Paulo, quatro na Zona Sul (Extra, duas lojas do Carrefour e Magazine Luiza) e dois na Avenida Paulista (Fnac e Fast). Buscando mapear o preparo dos vendedores, elaborei algumas perguntas básicas que qualquer pessoa sem domínio tecnológica da televisão faria: 1. para alta definição, é melhor comprar uma TV de plasma ou LCD (quero 42 polegadas)? 2. é melhor um receptor integrado ou separado? 3. Preciso de antena? 4. O sinal pega em toda cidade de São Paulo? 5. Posso descartar meu receptor de TV por assinatura? Outras questões iam sendo incluídas conforme as conversas. Além disso, em todas as lojas pedi para ver um comparativo entre imagem analógica e TV de alta definição.
Em nenhuma loja esse comparativo pode ser feito. Nenhuma loja tinha TV sintonizada em conteúdos abertos de alta definição; três tinham sinal analógico sintonizado por TV HD. Saí de todas as lojas sabendo que o blu ray é maravilhoso (foi usado em todas as lojas como referencia de conteúdos HD), mas sem ter visto uma única imagem em alta definição da TV aberta. Nos horários que visitei as lojas, a maioria dos canais não transmitia conteúdo em alta definição. Em três lugares (Fnac, Fast e Extra) os vendedores explicaram que as emissoras alternam programas HD e SD. Nas duas lojas do Carrefour os vendedores garantiram que os desenhos animados eram em HD (em uma loja “Três espiãs demais”e na outra não consegui reconhecer o desenho). Na Magazine Luiza a vendedora deu uma resposta tão confusa que não consegui acompanhar o raciocínio dela. Pode até ter respondido corretamente…
Apenas na Fnac todas as questões foram respondidas corretamente. A loja ainda ofereceu a possibilidade de devolução do produto caso na minha residência não tivesse recepção digital.
Na Fast a maioria das questões foi bem respondida, tirando a recepção do sinal. O vendedor garantiu que com antena externa seria possível captar todos os canais abertos em qualquer lugar da cidade. No entanto, é preciso ressaltar que o mesmo vendedor deu uma aula sobre as diferenças de LCD e plasma. Ainda explicou porque o LED está substituindo as duas, e obviamente, ofereceu uma TV de LED, muito mais cara.
Nas demais lojas, um desastre total. Além de confundir HD e SD, os vendedores desconheciam as diferenças entre receptores embutidos e separados, recepção do sinal e necessidade da antena. Em três lojas as diferenças entre LCD e plasma se resumiam a preço. Na Magazine Luiza, a vendedora disse que eu poderia cancelar a assinatura da TV a cabo, pois a TV aberta em alta definição é muito melhor (como se fosse possível fazer esse comparativo…).
Em nenhuma visita perguntei sobre interatividade, já antevendo problemas nas respostas. Nenhum vendedor tomou a iniciativa de explicar que mesmo a recepção SD é muito melhor do que o sinal analógico e que TV digital não se resume à alta definição.
Por esta experiência, pode-se perceber que o problema da TV digital está longe de ser apenas divulgação. Os pontos de venda estão despreparados para atender os consumidores e falta conteúdo em alta definição. Como convencer um comprador a adquirir um receptor digital se não há conteúdo para ser mostrado? A alta definição está muito restrita ao horário nobre. De manhã e a tarde são raros os programas em HD, e os que tem possuem sérios problemas de produção, com poucas exceções.
O mínimo que eu esperava de qualquer loja desse porte é um stand com pelo menos quatro tipos de recepção: analógica com TV CRT, digital HD, digital com TV CRT e qualquer coisa usando TV por assinatura digital. Assim, o consumidor poderia ter clareza e certeza sobre o que está comprando. Mas nada que chegue perto na cidade de São Paulo. Se eu estiver enganado, por favor, me dêem o endereço desse lugar…
Fico me perguntando se realmente vale a pena fazer, neste momento, uma grande campanha de divulgação. O primeiro entrave seria o despreparo dos vendedores. E segundo, como mostrar as diferenças e as melhorias da imagem, se os programas da manhã e da tarde são majoritariamente em SD? Isso falando de São Paulo, onde todos os canais estão pelo menos transmitindo digital. Das 26 cidades que tem sinal digital, a maioria está restrita a dois ou três canais. Nesses casos, os conteúdos em alta definição são ainda mais restritos. Nesse caso, como causar a boa impressão da qualidade da imagem?
O mesmo risco há com o lançamento da interatividade. Além da divulgação adequada, será necessária uma força tarefa para termos conteúdos bons e interessantes no ar, que agreguem valor à programação tradicional. Caso contrário, será muito difícil convencer alguém a comprar um receptor mais caro, que acrescenta pouco à televisão dele. Simplesmente colocar interatividade no ar, sem preocupação com qualidade e quantidade, não será a solução, pelo contrário.
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Dezembro 2nd, 2009 at 15:02
Oi Valdecir, sua avaliação foi excelente.
Acredito que precisamos criar massa crítica para fomentar o mercado como um todo.
E isso deve ser responsabilidade de todos nós envolvidos com TV digital. Isso vai além da simples divulgação e não é papel apenas do Governo.
Abraços
Dezembro 2nd, 2009 at 16:39
Valdecir, aqui na Baixada, eu conheço um Stand que tem 4 tipos de recepção de TV aberta (analógica CRT 21′, analógica LCD 42′, digital CRT 21′ e digital LCD 42′ Full HD). É o Stand “Lá Em Casa”. Só não tem TV por assinatura digital. Acho que vou montar uma “empresinha” de treinamentos para vendedores.
Dezembro 3rd, 2009 at 13:42
Valdecir:
Parabéns pela coragem de mostrar o que de fato está acontecendo. Vemos isso todos os dias, mas ninguém até agora tinha mostrado dessa forma o problema dos vendedores ruins.
Apenas faltou você falar da multiprogramação. Para quem não tem TV de alta definição, a multiprogramação é um ótimo atrativo para a compra de um set top box, pois aumentaria o número de canais. A Globo é a única emissora contrária a multiprogramação (todos sabemos o porquê). As demais emissoras aumentariam o número de canais rapidamente. Nesse stand que você propôs, poderia ter um receptor apenas mostrando um mosaico dos canais novos. Um baita chamariz, não acha?
abs,
SG.
Dezembro 18th, 2009 at 12:26
[…] Algumas reações de descrédito chegaram a minha caixa de e-mail referente ao post abaixo “Os problemas da TV digital estão no conteúdo e pontos de venda“. Um amigo me disse que eu tinha dado azar com os vendedores, pois era impossível tamanho descaso por parte das lojas. Outra mensagem questionou a responsabilidade das lojas, dizendo que não era função delas educar o consumidor. Ambos podem estar corretos, uma vez que não usei nenhuma metodologia científica em minhas visitas e muito menos entrei no mérito de como uma loja deve vender seus produtos. No entanto, uma coisa é fato: a maioria das lojas que eu conheço e frequento confunde os consumidores e está dando um tiro no pé quando não sabe anunciar corretamente seus produtos. As duas fotos abaixo foram tiradas ontem a noite, em um dos maiores supermercados do ABC, que fica na Rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo. Duas TVs, uma full HD e outra 1344X768, conectadas a um Blu-Ray e um home theater SD, respectivamente, com a imagem totalmente distorcida. Se tivessem simplesmente conectado os cabos e dado play, isso não poderia ter acontecido… […]