Por Valdecir Becker e Marcelo Zuffo

Plataforma permite uma aferição mais precisa do consumo de mídia, inclusive da interatividade

A digitalização da TV aberta traz problemas para a medição de audiência, mas também abre possibilidades para melhorar esta medição. Por um lado, novas técnicas precisam ser desenvolvidas para contemplar a transmissão digital em multiprogramação e em sistemas móveis e portáteis. Por outro, componentes computacionais permitem novas técnicas de medição, tornando-a mais eficiente.
A medição de audiência na televisão é baseada na frequência sintonizada pelo aparelho da TV. No Brasil é acoplado à televisão um audímetro, conhecido como people meter, que identifica a frequência sintonizada e envia as informações para uma central do Ibope. Ao ligar a TV, cada morador se identifica e o aparelho mapeia informações sobre canal assistido e tempo em que ficou sintonizado. Na cidade de São Paulo as informações são enviadas em tempo real. Nas demais praças com medição eletrônica, os dados são armazenados pelo people meter e enviados no final do dia.
Para exemplificar, se o telespectador sintonizar o canal dois na TV analógica, que corresponde à TV Cultura na cidade de São Paulo, o audímetro identifica a frequência desse canal (54 a 60 MHz) e envia a informação para o Ibope.
Na TV digital, cada emissora recebeu uma concessão adicional para transmitir simultaneamente o sinal digital e o analógico. A sintonia continua sendo feita pelos mesmos números, ou seja, a TV Cultura é sintonizada pelo canal dois também na TV digital, apesar de transmitir na frequência 530 a 536 MHz, que corresponde ao canal 24 UHF. Essa característica facilita a sintonia na TV digital, pois não é necessário memorizar novamente os números dos canais.
A grande diferença reside no fato da TV digital permitir mais canais na mesma frequência, comparado à TV analógica, que permite apenas um. Esse recurso é conhecido como multiprogramação. Os canais adicionais são conhecidos como canais lógicos ou subcanais.
A TV Cultura, por exemplo, está transmitindo quatro canais na frequência digital dela: TV Cultura (mesma programação da TV analógica), TV Univesp, MultiCultura e One-Seg, voltado para receptores portáteis, mas possível de ser sintonizado por aparelhos fixos. Do ponto de visto técnico, é possível transmitir até oito subcanais na frequência de 6 MHz, além do One-Seg.
Aplicando as técnicas tradicionais de medição à TV digital, seria possível identificar apenas que o telespectador sintonizou a frequência do canal 24, ou seja, um dos canais oferecidos pela TV Cultura. Não há a possibilidade de detalhamento quanto ao subcanal: Cultura, Univesp, Multicultura ou One-Seg.
Para resolver esse problema, está em desenvolvimento no Laboratório de Sistema Integráveis da Escola Politécnica da USP, um sistema de medição de audiência baseado em software, que identifica os canais visualizados a partir de informações transmitidas pelas emissoras de TV. Esse software é executado no próprio receptor digital, sem qualquer interferência na audiência ou necessidade de equipamentos/controles remotos adicionais, como acontece hoje com os audímetros analógicos. O software pode tanto já vir instalado nos receptores como ser transmitido pelo ar, junto com a programação da TV.
O receptor digital, também conhecido como set top box, é um computador do ponto de vista do funcionamento, pois tem processador, memória, capacidade de armazenamento e acesso à internet. Assim, as informações colhidas pelo software medidor podem ser armazenadas ou enviadas em tempo real para um banco de dados da própria emissora ou do instituto medidor. O envio dos dados coletados pode ser feito por qualquer rede, como ADSL, 3G, telefone fixo ou celular.