Artigo originalmente publicado no Portal Imasters.

Quando se fala em TV interativa, é usual buscar conceitos e conteúdos na internet ou em programas para computadores. Analisando os exemplos de aplicações disponíveis online com foco no Ginga, percebe-se claramente um viés de internet na maioria deles.

Apesar de um set top box ser um computador, do ponto de vista da arquitetura, seus usos variam consideravelmente sobre vários aspectos. Inicialmente, o oferecimento do conteúdo da internet é feito sob demanda, enquanto que na televisão ele é transmitido por broadcast. Essa diferença impacta no tempo, pois na web o conteúdo fica disponível, enquanto que na TV, com raras exceções de gravação, o conteúdo transmitido não poderá ser recuperado.

Essa postura diante da TV gera hábitos de consumo com horários estabelecidos pela programação televisiva. Isso leva à constatação de que a mídia TV é mais voltada para o entretenimento, sendo raramente utilizada para fins profissionais. Já a postura diante de um computador ou da internet, varia. O entretenimento e o uso profissional são intercalados, com predominância do último. Além disso, a televisão normalmente é assistida coletivamente, em família ou com amigos, ao contrário de um computador que, com exceção de alguns jogos, sempre é usado individualmente.

Essas diferenças de uso se originam de dois pontos: a imagem entrelaçada dos monitores de TV analógicos é melhor percebida a uma distância de sete vezes a altura do monitor. Já os monitores de computador não têm essa necessidade, sendo utilizados a uma distância média de 50 centímetros. Além disso, a televisão tem apenas o controle remoto para interação, enquanto que um computador tem mouse, teclado, impressora, conexões de rede e uma série de outros dispositivos que podem ser conectados pela interface USB.

Finalmente, o uso cultural da televisão pode ser considerado como um fim em si, onde o simples fato de a TV estar ligada representa uma presença na casa. A televisão não é necessariamente ligada para que um programa seja assistido mas, muitas vezes, apenas para dar a sensação de presença, pelo diálogo que ela enseja.

Por isso, aplicações para TV sempre precisam considerar as limitações da interface e os contextos de uso. A resolução de uma TV de tubo é de no máximo 720X480, com construção entrelaçada dos quadros. Isso significa que primeiro as linhas ímpares são mostradas na tela e depois as pares, o que complica muito a leitura de textos longos. Mesmo na TV analógica, as emissoras usam pouquíssimos textos, sempre curtos. Identificação de pessoas, escalações de times esportivos, dados estatísticos, transcrições de fitas, entre outros, são feitos em blocos pequenos de texto, com fonte grande, superior a 20 pontos, na maioria dos casos.

Além disso, a maioria dos possíveis usuários da televisão interativa não têm experiência com internet. Pesquisas mostram que, no Brasil, 61% da população nunca usou um computador. E quem tem acesso à internet não deseja ver replicado na TV interativa o sistema de navegação ou mesmo o conteúdo da internet. Semelhanças com computadores não são bem aceitas.

Texto na TV

As interfaces das aplicações interativas começam e terminam pela compreensão das informações dispostas na tela da TV. Por isso, todos os manuais e guias de estilo descrevem tipologias que preenchem requisitos mínimos de leitura. Há muitas semelhanças entre fontes e tamanho da letra entre as aplicações interativas que foram ao ar na Europa.

A programadora de satélite brasileira Sky, primeira a oferecer interatividade pela TV no país, usa fontes que se assemelham com a variante condensada da família de tipos Frutiger. Já a emissora britânica BBC sugere, em seu guia de estilos, o uso dos tipos Gill Sans e Tiresias. Veja exemplos de tipos destas famílias em corpos 36, 24 e 18 pontos.

Famílias de tipos utilizados pelas emissoras BBCi

Famílias de tipos utilizados pela programadora Sky

É importante ressaltar que a fonte Tiresias foi projetada pelo Royal National Institute for the Blind para que tivesse caracteres facilmente distinguíveis uns dos outros. Segundo o instituto britânico, o projeto foi realizado com atenção específica às pessoas com deficiências visuais, com a filosofia de que um bom projeto para deficientes visuais é um bom projeto para todos. Devido a essas características, o tipo Tiresias foi adotado como fonte padrão para as aplicações em MHP e, por essa razão, já vem sendo implementada nos set-top boxes de diversos fabricantes europeus.

Em seu guia de estilos, a BBC traz sete importantes considerações a respeito da legibilidade em monitores de televisão. Segundo a emissora britânica:

1. O corpo dos textos, na maioria dos casos, não deve usar tipos menores que 24 pontos;
2. Nenhum texto, em qualquer circunstância, deve ter tipos menores que 18 pontos;
3. Textos claros em fundos escuros são ligeiramente mais legíveis na tela;
4. Textos na tela necessitam de entrelinhas maiores que textos impressos;
5. Quanto tecnicamente possível, o espaço entre os caracteres deve ser aumentado em 30%;
6. Uma tela completa de textos deve conter o máximo de 90 palavras aproximadamente;
7. Os textos devem ser divididos em pequenos blocos para que possam ser lidos instantaneamente;

Ao analisar a programação da SKY interativa veiculada no Brasil, é possível perceber que outros tamanhos de fonte também funcionam. Das sugestões trazidas pela BBCi, as três primeiras são as menos seguidas nas aplicações brasileiras, tanto da Sky quanto da NET digital. Em todas as interfaces de aplicações veiculadas pelas TVs por assinatura brasileiras nota-se o uso de textos de tamanhos inferiores aos sugeridos pela emissora britânica.

De um modo geral, os textos principais e os menus de opções são apresentados com 20 pontos, ou seja, 15% menores que o indicado. Já os títulos de seções variam entre 20 e 24 pontos, ficando também, em alguns casos, abaixo do padrão britânico. Porém, o caso mais grave fica por conta dos botões que indicam ações importantes como sair, retornar, confirmar e ajuda. Na grande maioria das interfaces analisadas, esses botões eram representados com 16 pontos. Em muitas aplicações, os textos dos botões eram diminuídos a apenas 12 pontos e raramente chegavam a 18 pontos - tamanho mínimo sugerido pela BBCi.

Outra regra a ser também desconsiderada em solo brasileiro é a do emprego de textos claros em fundos mais escuros, pois em muitas das interfaces analisadas estes são apresentados de forma justamente oposta.

Apesar de as interfaces não seguirem à risca os padrões britânicos, alguns testes de legibilidade realizados em televisores de 14 polegadas revelam que os textos principais dessas interfaces são perfeitamente legíveis a cerca de 1 metro de distância. Entretanto, é importante observar que, em virtude de seu tamanho, o mesmo não se aplica aos textos dos botões. Cabe lembrar ainda que a distância de leitura observada para os textos principais das aplicações em televisores de 14 polegadas chega quase ao dobro da distância de observação recomendada para esse tipo de aparelho.

Para finalizar, é preciso lembrar que as recomendações acima são aplicáveis apenas em TVs de tubo. As TVs de LCD e plasma necessitam de tratamentos e enfoques diferentes.