A TV digital por si só é uma área totalmente interdisciplinar. A Engenharia predominou no processo tecnológico, o que resultou na melhor tecnologia do mundo (fato comprovado pelo seguimento dos outros países). O sistema está estável, funcionando bem, com poucos problemas pontuais e as críticas estão começando a ceder. Isso do ponto de visto meramente tecnológio, porque do ponto de vista comercial e estético temos poucas mudanças. O número de programas efetivamente em alta definição (sem processo de down/up conversion) está crescendo, mas a programação disponível ainda está longe de atender plenamente as espectativas. Eventos esportivos, algumas telenovelas, alguns shows, alguns programas de auditótio, e nada mais. A interatividade está batendo na porta e, tirando algumas emissoras, ainda não se sabe o que fazer com ela.
    Essa foi a mensagem central de uma mesa de que participei na FAAP ontem, durante a 32a Semana de Comunicação da Universidade. Palestrou também André Mermelstein, editor da revista Tela Viva, que focou a apresentação nas mudanças em curso no mercado audiovisual, com a nova formatação da TV e do conteúdo audiovisual. Eu foquei alguns pontos conceituais sobre alta definição e interatividade, como resposta à broadbandTV.
    Ao final das palestras, o debate que se seguiu apontou para a falta de contribuições das áreas relacionadas ao pensamento e ao desenvolvimento de conteúdos para essa nova TV. A área da comunicação, especificamente, ainda está engatinhando no tema. Com poucas exceções (o livro da Compós, o programa de pós graduação da UNESP, alguns cursos de especialização, e algumas linhas de pesquisa novas em programas de pós-graduação e outras iniciativas isoladas), os especialistas da área ainda não entenderam que é momento de propor conteúdos e soluções, e não simplesmente refletir sobre os erros cometidos. São posturas desse tipo que atrasam o processo de implantação, pois, se as emissoras não tem como recorrer às universidades, recorrerão a quem? Quando a Engenharia foi chamada a dar sua resposta, os resultados foram amplamente positivos, com conhecimentos gerados que continuam resultando em pesquisas com alta repercussão internacional.
    E as escolas de jornalismo, RTV, PP, o que estão gerando para contribuir no processo? Fiz um rápido levantamento sobre o que tem disponível na web de propostas de interatividaes para a TV digital. Praticamente todas as aplicações e discussões tem origens na informática e na engenharia. Achei pouquíssimas contribuições de pesquisadores da comunicação.
    Trata-se um desafio urgente para ser encarado muito seriamente, que exige resultados pró-ativos imediatos. A área da comunicação perdeu o primeiro trem da história, quando não entrou na formação dos consórcios de pesquisa em 2004. Agora está correndo o risco de perder o segundo, deixando de contribuir para que essa nova televisão iminente esteja mais próxima do que a sociedade espera e precisa.