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Esta se acirrando a disputa judicial em torno da digitalização de livros feita pelo Google. O gigante da internet está se propondo, de forma muito ambiciosa, a digitalizar todos os livros do mundo e oferecê-los on line. A maioria deles, de forma gratuita. Especificamente para os EUA, o Google pretende oferecer digitalmente todos os livros não editados naquele país.
Na sexta passada, terminou o prazo oferecido pelo Google para que editoras e autores de todo o mundo se manifestassem contra a sua proposta de digitalizar e disponibilizar, no Google Books, livros que ainda não estão em domínio público, mas que não são encontrados nas livrarias dos EUA. Milhões de títulos caem nessa categoria.
Isso, obviamente, gerou protestos da indústria editorial. Na Europa há dezenas de processos contra essa iniciativa. Críticos afirmam que trata-se de uma tentativa de monopólio da informação; defensores afirmam se tratar da tão sonhada democratização. No entanto, essa discussão passa por questões muito mais complexas.
Por exemplo, no meu doutorado estou utilizando pelo menos seis livros acessíveis apenas pelo Gbooks. Esses livros não estão acessíveis para compra, nem na Amazon. Para ter uma ideia, comprei 16 livros na Amazon (e mais um monte na Cultura) para realizar a parte teórica da pesquisa. Gosto de rabiscar os livros e fazer anotações, mas a indisponibilidade de alguns títulos importantes me fez valorizar a disponibilização on line. Não tenho pretensão de fazer nenhuma apologia à pirataria (mesmo que sou suspeito nessa área, pois baixo as séries preferidas na web e depois compro o box com a temporada toda - vai entender), mas se o produto não está disponível, não vejo problema no acesso on line. É uma teoria que passa os debates manequeístas do acesso democrático à informação X monopólio desse acesso.
Trata-se, acima de tudo, de questionar o mercado editorial sobre as políticas de publicação e de preços. Se o livro não está acessível para compra (seja disponibilidade ou preço), qual o problema na disponibilização on line? Parece que o mercado editorial de livros está demorando para acordar para a nova realidade digital, onde tudo pode ser acessível a todos. É utopia lutar contra o fenômeno da cauda longa.
Ainda dentro do tema acesso a livros, saiu uma pesquisa nesta semana mostrando que as famílias brasileiras gastam, em média, R$ 11 por ano com livros não didáticos. O valor é bem menor do que a despesa com revistas (R$ 42) e jornais (R$ 17). A pesquisa mostrou também que esse valor é sensível a renda. Das famílias que ganham até dois salários mínimos, 18,66% compram material de leitura. Entre aquelas que ganham de cinco a dez salários mínimos, esse percentual sobe para 45,56%. Ao comparar com famílias que recebem 15 salários mínimos, o índice alcança 71,24%.
A média de R$ 11,00 por família é irrisória. Não dá para comprar nem a capa de um bom romance e nem a orelha de um bom livro técnico. A iniciativa do Google certamente pode contribuir para levar à leitura aqueles que não tem poder de compra para adquirir livros. Para isso, teria que ter acesso à web, que é outra discussão.