Setembro de 2009


Momentos após a ouriçada e alviçareira venda do BuscaPé para a Naspers Limited, surge um questionamento sobre o porquê do Brasil produzir tão poucas empresas pioneiras e que fazem algo relevante para as novas tecnologias de informação e da comunicação. A causa, obviamente, está no sistema de ensino tupiniquim, que forma, com várias e honrosas exceções, para um mercado do século passado. Vejamos a mentalidade americana (The Search, John Battelle, pag. 67):

Larry Page and Sergey Brin both knew what they where getting into when they accepted admission into Stanford University’s graduate school of computer science. Stanford’s elite program is known worldwide for its heady mix of academic excellence and corporate lucre. Students don’t come to Stanford just for the training. They come for the dream: to start a company, grow rich, make their mark in the history of technology, and maybe chance the world. This is the university, after all, that spawned Hewlet-Packars, Silicom Graphics, Yahoo, and Excite, to name just a few.

Para quem questiona esse tipo de abordagem, vale lembrar que a Universidade de Stanford tem atualmente no corpo docente 16 laureados com o prêmio Nobel. Nada mal para uma universidade que atrai alunos com a promessa de abertura de empresas e enriquecimento rápido.

Larry Page e Sergey Brin são nada mais, nada menos, que os criadores do Google, que começaram desenvolvendo algoritmos de relevância para indexação de páginas web em 1996, simplesmente porque os sistemas disponíveis não funcionaram, segundo a visão dos dois. Em vez de reclamar, resolveram o problema, semelhante aos sócios do Buscapé, e de quebra, ganharam um “troco”.

Pena que esses exemplos não são sequer conhecidos pela maioria dos nossos alunos de graduação…

    Estava tudo muito bonito e preparado para o lançamento oficial da interatividade na TV digital no final deste ano. As principais emissoras de SP estão com aplicações no ar, montaram setores para cuidar do desenvolvimento, treinaram profissionais. As empresas de software mostraram que a Ginga está funcionando, com alguns pequenos problemas ainda, mas nada que não possa ser solucionado rapidamente.
    Porém o céu de brigadeiro durou pouco. Há algumas semanas o setor de recepção levantou um problema sério nos debates do Fórum do SBTVD: a falta de uma implementação de referência e de uma suíte de testes. Como a TV digital aberta é padronizada e todas as emissoras devem ser recebidas de igual forma por todos os receptores, é preciso que tanto os transmissores quanto os receptores tenham um mínimo de recursos compatíveis, padronizados. Isso permite que o mesmo receptor sintonize todas as emissoras. O mesmo vale para a interatividade: todas as aplicações devem funcionar do mesmo jeito em todos os receptores. A interatividade não pode ter comportamentos diferentes em marcas de set top boxes distintos.
    Por isso, os set top boxes precisam passar por um suíte de testes, que homologa a implementação do middleware. Essa suíte que está gerando os problemas agora. A indústria de recepção se recusa a colocar set top boxes não homologados no mercado, para evitar, ou pelo menos minimizar, riscos de recall.
    Semana passada surgiu a sugestão de o governo federal lançar um edital e contratar um consórcio de universidades e institutos de pesquisa para desenvolver essa implementação de referência (que deverá servir de base para as demais) e a suíte de testes (pela qual todos os receptores interativos deverão passar). A idéia pode até ser boa, no entanto, esse projeto não ficaria pronto antes de 2011. Contando os trâmites burocráticos do governo, Finep, contratação e desenvolvimento, um projeto desses não é viável em menos de 15 meses. Ou seja, a interatividade ficaria postergada mais uma vez e o Ginga correria sério risco de ficar obsoleto muito antes do lançamento.
    Ontem o setor de software, representado por 11 empresas no Fórum, fechou questão contra essa proposta. Em breve, apresentará alternativas para colocar a interatividade no ar mais cedo. Lembrando que a interatividade já poderia estar no ar com o Ginga 1.0, pronto há mais de um ano com NCL e LUA. A proposta do Ginga 1.0 foi derrotada no Fórum. As próximas semanas prometem… e o mercado agoniza sem sequer existir de fato.
      Em meio a várias estratégias dos estúdios americanos buscando combater a pirataria, a distribuidora Fox lança, nesta semana, no Brasil, o box da 12a temporada dos Simpsons. Isso mesmo: 12a temporada. Enquanto que a 20a temporada terminou no canal há algumas semanas, a 12a é lançada em DVD. Depois querem reclamar que todos baixem os episódios da internet…
    Internet e serviços de processamento computacional oferecidos de forma pública, tal qual a energia elétrica. Essa a discussão central do livro A Grande Mudança: Reconectando o mundo, de Thomas Edison ao Google, de Nicholas Carr. O autor compara o oferecimento da internet com a evolução da disponibilização da energia elétrica, que passou de geradores descentralizados, onde cada um possuía o seu, para gigantes usinas centrais com complexos sistemas de transmissão. Hoje não faz sentido alguém gerar a própria energia, como não faz sentido, segundo Carr, cada empresa ter o seu sistema de TI, com servidores e desktops.
    O processamento das informações poderia ser feito por um servidor central, que distribuiria as informações para todos os clientes, com simples terminais de acesso. O modelo do Google já funciona dessa forma: alguém sabe onde são armazenados os e-mails ou documentos do Docs? Ou onde é processada a requisição de uma pesquisa no sistema de buscas?
    Atualmente já é possível usar um computador muito limitado para fazer todas as tarefas diárias mais simples, sem nenhum programa instalado. O Google oferece as ferramentas de escritório; a Adobe, de edição de vídeo; o Flickr de edição de imagens, e assim sucessivamente. O computador passou a ser um mero meio de acesso, sem qualquer necessidade de processamento ou armazenamento.
    Esse modelo deveria ser discutido com mais seriedade no Brasil, onde ainda são ridículos os números de pessoas com acesso à internet. Os dados do PNAD (post abaixo) mostram que o país ainda está longe de oferecer um acesso à internet minimamente aceitável para a população. Isso falando apenas em acesso, sem considerar as mazelas de serviços como Speedy, Virtua ou 3G, que parecem se reveza para ver quem oferece o pior serviço de tráfego de dados.
    Em vez de incentivar a comercialização de computadores populares, que não funcionam três meses depois de vencida a garantia (quem comprou um PC popular no Submarino ou nas Casas Bahia sabe do que estou falando), o governo deveria prover uma rede de acesso a servidores centrais, que fariam todo processamento e armazenamento das informações. Na casa das pessoas, simples terminais de acesso a essa computação em nuvem. Muito mais barato e tecnologicamente mais promissor. Ou alguém acredita que a Microsoft, com seu modelo centralizado de software, vai conseguir dar a volta por cima do modelo em nuvem do Google?
    O mesmo modelo pode ser usado para processar a interatividade na TV digital, onde um modelo convergente com a computação em forma de serviço público resolveria ambos os problemas: internet e TV digital.
      Esta é uma semana de estreias nos EUA, com início de temporadas novas de várias séries de destaque. Voltaram séries como Fringe (FOX), House (FOX), The Big Bang Theory (CBS), Two and a Half Men (CBS), Supernatural (CWTV). Nada de anormal, se não fosse a imensa campanha publicitária da Warner e da Universal brasileiras, que estão anunciando as novas temporadas dessas séries para outubro. São apenas três semanas de diferença entre o lançamento nos EUA e o lançamento no Brasil.
      Trata-se de mais uma ação coordenada das redes de TV por assinatura visando combater a pirataria. Todos os premiere episodes já estão disponíveis on line com legendas em português. Há alguns anos chegava-se a esperar até mais de um ano pelo lançamentos das temporadas novas no país. Algo que se tornou inimaginável atualmente. Se as TVs não oferecerem, os fãs acham alternativas para consumir o que lhes é negado. Pelo menos sob esse aspecto, a pirataria está fazendo um grande favor para o público brasileiro.
      Para o ano que vem, o canal AXN pretende adotar uma estratégia ainda mais ousada no lançamento da temporada final de Lost, séria mais baixada ilegalmente da internet nos últimos anos.

Artigo originalmente publicado no Portal Imasters.

Finalmente saiu o primeiro livro sobre programação para a TV digital brasileira, especificamente para o middleware Ginga. Os professores da Puc-Rio Luiz Fernando Gomes Soares e Simone Diniz Junqueira Barbosa acabam de lançar “Programando em NCL 3.0: desenvolvimento de aplicações para o middleware Ginga” (Editora Campus, R$ 125,00). O livro aborda, de forma ampla e completa, a linguagem NCL, permitindo que iniciantes no assunto se familiarizem com o tema e que especialistas consultem exemplos avançados de uso de variáveis e múltiplos dispositivos.

Em 340 páginas de texto, distribuídas em 18 capítulos, mais 140 páginas de apêndices, os autores dissecam a linguagem NCL, começando por definições pertinentes ao desenvolvimento de aplicações. Nos primeiros capítulos, que compõem a parte um, o tema é apresentado, com detalhamento da importância e da função de um middleware em TV digital, passando pelo modelo conceitual que embasa a linguagem e nos componentes da mesma.

A parte dois é dedicada à apresentação de cada elemento e cada atributo da linguagem, com base no perfil EDTV. Com vários exemplos, os autores discutem a estrutura de aplicações bem simples e avançam paulatinamente na complexidade, o que facilita a compreensão. O final desta parte já entra em conceitos um pouco mais avançados, como adaptação de aplicações durante a execução, regras e reuso de elementos.

Finalmente, na terceira parte, os autores apresentam as inovações do middleware Ginga e como elas podem ser incorporadas nas aplicações. São apresentados exemplos de aplicações para programas ao vivo, para múltiplos dispositivos e aninhamento de objetos importados, escritos em outras linguagens como Lua.

O livro é completado com dois CDs: um emulador Ginga Live, versão 1.1, que permite testar as aplicações desenvolvidas no próprio PC, e uma série de slides com ilustrações e imagens referentes aos temas abordados nos capítulos. São ótimos para uso em sala de aula. Além disso, acompanha um arquivo pdf com os apêndices, que detalham, em linguagem bem acessível, conceitos como compressão e transmissão de dados, modelo NCM, exemplos de conectores, NPT (Normal Play Time), edição ao vivo, procedimentos de escalonamento, entre outros.

Apesar de ser um livro sobre programação, a estrutura dos textos permite que ele seja utilizado também para compreender o funcionamento da interatividade na TV digital. Os apêndices agregam conteúdos sobre a dinâmica da transmissão de dados e como eles são tratados tanto no transmissor quanto no receptor.

Além disso, a forma como o desenvolvimento é apresentado possibilita o uso por pessoas não muito familiarizadas com lógica de programação. Os exemplos são úteis para programar e desenvolver conteúdos apenas adaptando os mesmos, copiando e colando partes, técnica muito comum com programadores iniciantes. A maioria dos exemplos discutidos no livro podem ser baixados no Clube NCL e no Portal do Software Público, na Comunidade Ginga. Os exemplos são distribuídos com licenças Creative Commons.

Números divulgados hoje:


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Em 2008, 17,95 milhões de domicílios brasileiros (31,2%) possuíam microcomputador, contra 26,5% em 2007. Desses, 13,7 milhões (23,8%) têm acesso à internet, contra 20% em 2007


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Mais da metade dos domicílios com computador (10,2 milhões) estavam no Sudeste em 2008, dos quais 7,98 milhões tinham com acesso à internet.


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De 2007 para 2008, mais 4,4 milhões de domicílios brasileiros passaram a ter algum tipo de telefone. Dos telefones a mais nas casas dos brasileiros, 3,98 milhões eram celulares.


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Com o aumento, a participação dos domicílios com algum tipo de telefone cresceu 5,3 pontos percentuais para 82,1% (ou 47,2 milhões). Já os domicílios somente com celular chegaram a 21,7 milhões (37,6% do total), um aumento de 5,9 pontos percentuais.

    A TV digital por si só é uma área totalmente interdisciplinar. A Engenharia predominou no processo tecnológico, o que resultou na melhor tecnologia do mundo (fato comprovado pelo seguimento dos outros países). O sistema está estável, funcionando bem, com poucos problemas pontuais e as críticas estão começando a ceder. Isso do ponto de visto meramente tecnológio, porque do ponto de vista comercial e estético temos poucas mudanças. O número de programas efetivamente em alta definição (sem processo de down/up conversion) está crescendo, mas a programação disponível ainda está longe de atender plenamente as espectativas. Eventos esportivos, algumas telenovelas, alguns shows, alguns programas de auditótio, e nada mais. A interatividade está batendo na porta e, tirando algumas emissoras, ainda não se sabe o que fazer com ela.
    Essa foi a mensagem central de uma mesa de que participei na FAAP ontem, durante a 32a Semana de Comunicação da Universidade. Palestrou também André Mermelstein, editor da revista Tela Viva, que focou a apresentação nas mudanças em curso no mercado audiovisual, com a nova formatação da TV e do conteúdo audiovisual. Eu foquei alguns pontos conceituais sobre alta definição e interatividade, como resposta à broadbandTV.
    Ao final das palestras, o debate que se seguiu apontou para a falta de contribuições das áreas relacionadas ao pensamento e ao desenvolvimento de conteúdos para essa nova TV. A área da comunicação, especificamente, ainda está engatinhando no tema. Com poucas exceções (o livro da Compós, o programa de pós graduação da UNESP, alguns cursos de especialização, e algumas linhas de pesquisa novas em programas de pós-graduação e outras iniciativas isoladas), os especialistas da área ainda não entenderam que é momento de propor conteúdos e soluções, e não simplesmente refletir sobre os erros cometidos. São posturas desse tipo que atrasam o processo de implantação, pois, se as emissoras não tem como recorrer às universidades, recorrerão a quem? Quando a Engenharia foi chamada a dar sua resposta, os resultados foram amplamente positivos, com conhecimentos gerados que continuam resultando em pesquisas com alta repercussão internacional.
    E as escolas de jornalismo, RTV, PP, o que estão gerando para contribuir no processo? Fiz um rápido levantamento sobre o que tem disponível na web de propostas de interatividaes para a TV digital. Praticamente todas as aplicações e discussões tem origens na informática e na engenharia. Achei pouquíssimas contribuições de pesquisadores da comunicação.
    Trata-se um desafio urgente para ser encarado muito seriamente, que exige resultados pró-ativos imediatos. A área da comunicação perdeu o primeiro trem da história, quando não entrou na formação dos consórcios de pesquisa em 2004. Agora está correndo o risco de perder o segundo, deixando de contribuir para que essa nova televisão iminente esteja mais próxima do que a sociedade espera e precisa.
      Segundo notícia da Tela Viva, o Chile também adotará o sistema ISDB-Tb. A presidente Michelle Bachelet deve anunciar a decisão nos próximos dias. Como Argentina anunciou a sua decisão há alguns dias, há um tendência muito forte agora de que o resto da América do Sul siga os passos dos três principais países. Se isso vier a se confirmar, o ISDB terá o maior mercado mundial de televisão, depois da China e seu DMB. A padronização das normas entre todos os países poderá evitar o problema que aconteceu na Europa, onde nenhum país adotou o DVB na íntegra. Todos introduziram mudanças que acabaram com a compatibilidade entre os receptores. Quanto mais compatíveis foram os modelos, mais baixos poderão ser os custos.
    1. Momento relax de sexta-feira… ou nem tanto.

      Novo elemento na convergência tecnológica: o uso de pombos correio ao invés da banda larga. Pelo menos na África do Sul é mais rápido. Notícia divulgada pela BBC Brasil dá conta de um experimento feito pela empresa Unlimited IT, com dois escritórios, um na cidade de Howick e outro na cidade costeira de Durban. A empresa precisava passar 4 GB de informação entre os escritórios, e simultaneamente ao envio dos dados por banda larga enviou um pombo correio com um pen drive amarrado numa das patas.
      Segundo a reportagem da BBC, levou 1h08 para que a ave chegasse ao destino e mais uma hora para que o conteúdo do cartão fosse colocado em um computador. Durante o mesmo período, a empresa tentou enviar oe mesmos dados de um computador no primeiro escritório a outro, no segundo. Apenas 4% dos arquivos haviam sido baixados nesse tempo — mesmo com o uso da banda larga.

      Será que no Brasil seria muito diferente? em todo caso, para a seleção que vai a copa e os torcedores que pretendem visitar o país sul africano, se preparem. E contratem um bom pombo para enviar fotos e e-mails sobre as conquistas canarinhas….

    • Muito bons os três últimos textos do colunista Ethevaldo Siqueira, que acompanhou a maior feira de tecnologia da Europa, a IFA 2009. As apostas da indústria do entretenimento estão cada vez mais focadas na alta definição, 3D e convergência entre tecnologias, baseadas na facilidade de uso dos comandos de voz.
      O acesso a serviços da Web pela televisão também faz parte de muitos projetos, com o desenvolvimento de inúmeras ferramentas, o que dá uma dimensão mais exata das apostas do setor. Os serviços estão sendo formatados de acordo com a mídia e infraestrutura de acesso, e não o contrário, como se previa até há pouco tempo.
      Seguem os links dos textos:

      Inovações da IFA desafiam a imaginação

      Feira de Berlim supera as expectativas

      Este pode ser o ano do Blu-ray

      Lembrando apenas que tratam-se de apostas da indústria, que não significa que virarão hits de consumo. Este tipo de feira, assim como a Broadcast & Cable no Brasil, permite identificar tendências, mas ainda é muito cedo para ter certezas sobre o mercado. A questão do blu-ray, por exemplo, vai muito além do número de títulos disponíveis ou do preço dos players. O sucesso do blu-ray depende da velocidade da internet. Caso ela venha a suportar efetivamente o tráfego em larga escala de vídeo em alta definição, o blu-ray não tem qualquer sentido de existir. Caso contrário, ganha uma sobrevida.

      Esta se acirrando a disputa judicial em torno da digitalização de livros feita pelo Google. O gigante da internet está se propondo, de forma muito ambiciosa, a digitalizar todos os livros do mundo e oferecê-los on line. A maioria deles, de forma gratuita. Especificamente para os EUA, o Google pretende oferecer digitalmente todos os livros não editados naquele país.

      Na sexta passada, terminou o prazo oferecido pelo Google para que editoras e autores de todo o mundo se manifestassem contra a sua proposta de digitalizar e disponibilizar, no Google Books, livros que ainda não estão em domínio público, mas que não são encontrados nas livrarias dos EUA. Milhões de títulos caem nessa categoria.

      Isso, obviamente, gerou protestos da indústria editorial. Na Europa há dezenas de processos contra essa iniciativa. Críticos afirmam que trata-se de uma tentativa de monopólio da informação; defensores afirmam se tratar da tão sonhada democratização. No entanto, essa discussão passa por questões muito mais complexas.

      Por exemplo, no meu doutorado estou utilizando pelo menos seis livros acessíveis apenas pelo Gbooks. Esses livros não estão acessíveis para compra, nem na Amazon. Para ter uma ideia, comprei 16 livros na Amazon (e mais um monte na Cultura) para realizar a parte teórica da pesquisa. Gosto de rabiscar os livros e fazer anotações, mas a indisponibilidade de alguns títulos importantes me fez valorizar a disponibilização on line. Não tenho pretensão de fazer nenhuma apologia à pirataria (mesmo que sou suspeito nessa área, pois baixo as séries preferidas na web e depois compro o box com a temporada toda - vai entender), mas se o produto não está disponível, não vejo problema no acesso on line. É uma teoria que passa os debates manequeístas do acesso democrático à informação X monopólio desse acesso.

      Trata-se, acima de tudo, de questionar o mercado editorial sobre as políticas de publicação e de preços. Se o livro não está acessível para compra (seja disponibilidade ou preço), qual o problema na disponibilização on line? Parece que o mercado editorial de livros está demorando para acordar para a nova realidade digital, onde tudo pode ser acessível a todos. É utopia lutar contra o fenômeno da cauda longa.

      Ainda dentro do tema acesso a livros, saiu uma pesquisa nesta semana mostrando que as famílias brasileiras gastam, em média, R$ 11 por ano com livros não didáticos. O valor é bem menor do que a despesa com revistas (R$ 42) e jornais (R$ 17). A pesquisa mostrou também que esse valor é sensível a renda. Das famílias que ganham até dois salários mínimos, 18,66% compram material de leitura. Entre aquelas que ganham de cinco a dez salários mínimos, esse percentual sobe para 45,56%. Ao comparar com famílias que recebem 15 salários mínimos, o índice alcança 71,24%.

      A média de R$ 11,00 por família é irrisória. Não dá para comprar nem a capa de um bom romance e nem a orelha de um bom livro técnico. A iniciativa do Google certamente pode contribuir para levar à leitura aqueles que não tem poder de compra para adquirir livros. Para isso, teria que ter acesso à web, que é outra discussão.

    do blog do Phillip Swanni.

    Why 3-D HD Doesn’t Work For the Home
    (September 7, 2009) — Sony announced last week that it will introduce a 3-D HDTV by the end of 2010, adding its name to a growing list of electronics companies who believe the next big thing in the American home will be 3-D movies and video games.

    But they are wrong, wrong, wrong. And here’s three reasons why:

    1. Bad Timing
    Over the last few years, millions of people have purchased expensive new HDTVs. Do you really think they will buy another new expensive set just so they can experience the effect of a dinosaur jumping into their living room every so often?

    Of course not. The average person doesn’t buy a new TV every three years; he or she expects it to last for years and years. (This is why CE companies shouldn’t bank on the gaming audience to generate big sales for 3-D sets; gamers don’t buy new sets every couple of years, either.)

    2. Limited Benefits
    Relatively speaking, probably less than 20 percent of movies actually make sense with a 3-D component. Children’s films; horror films; sci-fi flicks; animated movies. And that’s about it.

    You’re not going to turn your average drama or even a smart comedy into a 3-D flick; it would destroy the plot and the movie watching experience.

    For example, can you imagine No Country for Old Men in 3-D? The Departed in 3-D? Raging Bull? The Godfather? Etc. etc. It would be ludicrous.

    So, who’s going to buy a 3-D HDTV, which will cost more money than your average high-def set, to watch a small percentage of your film library in the format? Very few people, that’s who.

    3. The Awkward Experience
    There are now a handful of Blu-ray releases available in 3-D (Journey to the Center of the Earth, a Hannah Montana concert, to name two), but they can be difficult to watch due to inferior color displays and other technical glitches. Watching a 3-D Blu-ray movie now is a very uncomfortable experience, despite the occasional impressive effect, and will simply lead to negative word of mouth about the technology.

    Of course, this will change as the technology improves. But even when the 3-D picture is better and more consistent, home viewers will still need special goggles or glasses to experience 3-D and that doesn’t exactly make for a pleasant experience to watch a movie at home.

    Seriously, folks, imaging wearing goggles for two hours while sitting in your favorite comfy chair? Yeech.

    So, bottom line: it will be years — perhaps a decade — before 3-D HDTV has a chance of reaching a large audience.

      A convergência digital/tecnológica ainda não é plenamente compreendida pela indústria do entretenimento. Muito se discute e pouco se faz de concreto. Existem vários exemplos bem sucedidos, cujos motivos ainda não foram plenamente explicados. A indústria americana, principalmente Hollywood, tem se notabilizado pela busca por novos formatos diante das ameaças como pirataria e diminuição da receita. Lost, Matrix, Fringe, Survivor, Harry Potter, American Idol, estão entre os mais destacados.
      Esse seleto grupo acaba de ganhar mais um estrategista e bem sucedido produtor. Anthony Zuiker, que assina séries como os três CSI (Las Vegas, Miami e Nova Iorque) e o roteiro do último Exterminador, acaba de propor um projeto audacioso: um livro que se completa on line, com participação dos leitores.

      A obra é “Level 26″, um romance policial que convida os leitores a completarem a percepção sobre o texto em um site. Aproximadamente a cada 20 páginas do texto é oferecido, em um site, uma “ciberponte”: um filme de três minutos ligado à história. Assim, os leitores poderão comprar o livro, visitar o site, se cadastrarem para assistir às “ciberpontes”, ler, comentar e contribuir para a história. Para quem não quiser essa dinâmica, o livro pode ser lido sem as ciberpontes.

      Em entrevista durante o lançamento do romance, Zuiker disse: “O futuro dos negócios, em termos de entretenimento, terá que estar na convergência de mídias diferentes”. Afirmou também não acreditar que o romance digital possa tomar o lugar da publicação de livros tradicional, mas que o setor estava precisando de uma injeção de inovação. “Todo o programa de TV, nos próximos cinco a dez anos, terá um site abrangente que levará a experiência adiante, além da hora de programação na TV, para continuar atraindo a atenção dos espectadores 24 horas por dia”, disse. “Apenas assistir à TV não será um modelo sustentável.”

      Trata-se de um projeto ousado, sem dúvida. Mas vindo de um dos executivos mais bem sucedidos de Hollywood, merece crédito. Dentro dos modelos intermidiáticos que constroem mundos compreensíveis apenas para quem trafega entre várias mídias, esse livro tem potencial de sucesso. Vamos acompanhar o andamento desse livro e ver os resultados.

    Vale a pena ler e refletir um pouco. Além da crítica sobre cibercultura (parafraseando o professor Squirra, “Até que enfim alguém “do meio” reconheceu os erros que alguns colegas vêm profetizando idolatricamente…”), a visão dele sobre interatividade é muito interessante. O livro citado, The Language of New Media, com versão em espanhol, é excelente para explicar e contextualizar a convergência tecnológica do ponto de vista dos serviços, algo tratado superficialmente no post anterior.

    “Para os acadêmicos que ainda usam o termo ‘cibercultura’ para falar da atualidade, eu recomendo que acordem e olhem para o que existe em volta deles”.

    Um dos mais importantes teóricos das novas mídias, o professor russo Lev Manovich, perfilado na nossa edição de segunda-feira, esteve no Brasil nas últimas semanas para participar de palestras no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE) e na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Confira os melhores trechos da entrevista que ele deu ao Link:

    A interatividade é um mito?

    Você deve estar se referindo a declaração que eu fiz no meu livro The Language of New Media, publicado em 1999. Eu falei isso como uma reação às discussões sobre novas mídias, que na época giravam exclusivamente em torno da tal “interatividade” e se limitavam a isso. Todas as experiências culturais, no fundo, podem ser definidas como uma forma de interação. O que eu quis dizer é que toda comunicação intermediada por um computador é interativa, por isso precisávamos desenvolver termos diferentes para os diversos tipos de interatividade.

    Por exemplo?

    No meu livro Software Takes Command (licenciado em Creative Commons e disponível para download), eu proponho uma alternativa. Para simplificar: nós não temos que analisar os objetos concretos, e sim as interações. Devemos seguir os internautas enquanto eles navegam por um site e analisar os caminhos pelos quais andam, em vez de apenas analisar o conteúdo do site. Devemos seguir os jogadores enquanto eles estão ligados em um game. Com isso, poderemos usar a tecnologia para captar traços de personalidade e emoções das pessoas enquanto elas lêem um livro, assistem a um filme e interagem com as novas mídias.

    Qual a peculiaridade da interatividade digital?

    A interatividade digital, intermediada por um software, é um novo capítulo da história da cultura humana. Alguém que lê um texto não-interativo pode também construir sua própria versão dele, mentalmente. Mas isso pode ser feito de forma real nos meios digitais. Um videogame que você joga é totalmente diferente do videogame que eu jogo. A probabilidade de nos movermos pelos mesmos caminhos, passarmos pelos mesmos desafios exatamente na mesma sequência, é próxima do zero.

    Você vê algum tipo de narrativa participativa que já integre totalmente seus usuários?

    A dos games. Os primeiros videogames usavam o que eu chamo de “interatividade fechada”, na qual os usuários podem acessar alguns dados e outros não. A partir dos anos 90, vários artistas mudaram para uma forma diferente, a “interatividade aberta”, em que o software ou site responde diretamente às ações dos jogadores. Em jogos em 3D, por exemplo, o jogador é livre para se mover em qualquer direção no seu mundo 3D. Eles foram extremamente bem sucedidos e dominaram a indústria na década passada. Cada jogo é único.

    Online e offline se tornaram a mesma coisa?

    Sim. Nos anos 90, só se falava de “virtual”, “ciberespaço” e “cibercultura”. Éramos fascinados pelas possibilidades que os espaços digitais ofereciam. O “virtual”, que existe à parte do “real”, dominou a década. Agora, a web é uma realidade para milhões, e a dose diária de ‘ciberespaço’ é tão grande na vida de uma pessoa que o termo não faz mais muito sentido. O mundo alternativo tão falado na ficção cyberpunk, nos anos 80, foi perdido. O “virtual” agora é doméstico. Controlado por grandes marcas, tornou-se inofensivo. Nossas vidas online e offline são hoje a mesma coisa. Para os acadêmicos que ainda usam o termo ‘cibercultura’ para falar da atualidade, eu recomendo que acordem e olhem para o que existe em volta deles.

    Fonte: O Estado de São Paulo, Seção: Cultura digital.

    Artigo publicado originalmente no Portal Imasters

    O congresso da SET deste ano, aliado a feira Broadcast & Cable, mostrou um dado interessante sobre o pensamento e comportamento do setor audiovisual diante de temas como interatividade e acesso ao conteúdo pela web. Por um lado, foram apresentadas várias aplicações, explicados por executivos das emissoras como uma nova forma de comunicação com a audiência. Por outro lado, o receio de que concorrência com a internet comprometa o modelo de negócios atual da radiodifusão permeou os debates.

    O tema interatividade predominou novamente, tal como já acontecera no ano passado. Várias emissoras e empresas mostraram aplicações interativas no ar e sendo recebidas por set top boxes comerciais, cujo início das vendas está previsto para novembro deste ano. A norma do Ginga está concluída, faltando acertar apenas pequenos detalhes sobre a versão do Java que será obrigatório e publicar a mesma. Depois disso, os receptores poderão ser oficialmente comercializados.

    As aplicações transmitidas ainda estão bastante simples no conteúdo que oferecem e nos recursos utilizados. No entanto, são de complexo uso. O tem usabilidade ainda passa longe do desenvolvimento, com interfaces voltadas para quem domina a navegação da web. Houve stands em que o responsável pela demonstração não conseguia usar a aplicação devido a problemas de interface. Imagine o público leigo, ou os 61% da população brasileira que nunca acessaram a internet…

    Portal de interatividade do SBT
    Portal de interatividade do SBT

    Aplicação
    Aplicativo “A Fazenda”, da Record

    No entanto, o que chamou a atenção na maioria dos paineis do congresso foi a forma como a interatividade está sendo tratada. Pela primeira vez, o broadbandTV (acesso à TV por banda larga) contagiou os debates, sendo interpretado como oportunidades por alguns e como preocupação para muitos.

    Os radiodifusores não se mostraram nem um pouco confortáveis, e, em alguns casos, até irritados, com o lançamento da Samsung, que colocou no mercado uma TV que acessa o Portal Terra e o Youtube, podendo sobrepor os vídeos à programação das emissoras. Assim, é possível assistir gratuitamente a qualquer série disponível nos portais, a qualquer momento, pela televisão. Se as emissoras já estão se debatendo com concorrências ferrenhas entre elas mesmas, agora há um inimigo comum: o conteúdo da web.

    Além disso, o modelo boradbandTV permite colocar widgets (pequenos aplicativos que se sobrepõe a interface e acessam serviços em outros sites, como previsão do tempo, posts no Twitter etc.) sobre a programação das emissoras, gerando conflito de atenção. Dessa forma, a tela da TV pode ser divida em funções semelhantes à tela de um computador, onde o próprio telespectador/usuário escolhe o que como deve ser a interface. Isso se acentua com a comercialização, ainda incipiente no Brasil, mas comum na Europa e EUA, dos media boxes, caixas que centralizam todo conteúdo audiovisual da casa. São computadores ligados à TV apenas para gerenciar o que será visto e como.

    A reação imediata a essa possibilidade tecnológica foi o fortalecimento do Ginga, visto agora não mais como um recurso da TV digital, mas como elemento central para a sobrevivência do modelo tradicional de radiodifusão atual. Percebeu-se finalmente que as novas mídias são todas interativas e não convivem com atitudes passivas do usuário. A televisão não pode ser diferente. O hábito de ver TV isoladamente, parando todas as demais atividades em função do que está passando na telinha não existe mais entre os jovens. O acesso à internet está cada vez mais presente e agregado à atividade ver TV.

    Parece que finalmente o setor de radiodifusão acordou para a evolução tecnológica. A tecnologia está evoluindo muito mais rapidamente do que o setor gostaria, o que gera estratégias de incorporação dos novos recursos ao quotidiano das emissoras. Por um lado, a radiodifusão se opõe radicalmente a presença de conteúdo da web sobre o seu vídeo, e por outro avança no oferecimento de seus conteúdos na web.

    Essa política traz um dado novo sobre a convergência entre TV e web, muito apregoada há anos. A convergência entre essas duas mídias já é uma realidade, mas ao contrário do que se acreditava, não está baseada nos serviços que a web oferece, e sim nos vídeos que a televisão oferece. A TV é uma mídia muito maior que a web, seja em acessos (o site mais acessado no Brasil daria traço na medição de audiência da TV), no faturamento, ou na qualidade dos conteúdos produzidos. As iniciativas de colocar redes sociais ou outros serviços tradicionais de internet (como e-mail, acesso a banco etc.) na TV não surtiram muito efeito, tendendo a serem marginais no processo de convergência. Agora, o oferecimento de vídeos por parte das emissoras levou a internet a outro patamar, com conteúdo melhores e mais profissionais (os sites mais acessados no Brasil estão relacionados ao oferecimento de conteúdos em vídeo não gerado por usuários, principalmente notícias).

    Além disso, o amadurecimento das ferramentas de publicação dos vídeos na internet e o aumento da banda disponível para os usuários finais estão gerando um novo mercado, totalmente desregulamentado, que pode, sim, concorrer em relevância e qualidade com as emissoras de TV. Isso preocupa o setor de radiodifusão. Como exemplo, ano passado, nas Olimpíadas de Berlin, as emissoras abertas Globo e Band ofereciam no máximo duas opções de transmissões simultâneas de eventos esportivos, quando a grade entre as duas não coincidia. O portal Terra chegou a transmitir 13 eventos simultaneamente. A partir de agora, esses eventos estarão acessíveis também pela TV, concorrendo com as emissoras abertas, que não tem como aumentar muito a oferta (o espectro é limitado, ao contrário da internet) e ainda lutam contra a multiprogramação.

    É uma luta desleal, que novamente opõe o poder político das emissoras de TV, com o poder econômico das empresas de telecomunicações, tal qual aconteceu na escolha do sistema brasileiro de TV digital.