Texto originalmente publicado no Portal Imasters.

Este texto traça um panorama contextual sobre a inserção da interatividade no mercado audiovisual, com a concorrência com outros dispositivos.

Agora que já dominamos um pouco o desenvolvimento de aplicações para o middleware Ginga, vamos analisar neste e nos próximos textos como esse desenvolvimento de insere no mercado audiovisual, mais especificamente nas emissoras de televisão. Nesta seção do Imasters estamos vendo como programar as aplicações. Falta, portanto, como conceber as interatividades que serão programadas em NCL, Lua ou Java e entender como elas se inserem no mercado.
Essa visão mais ampla é útil para pensar a interatividade dentro do contexto da grade de programação da emissora de TV, que é linear (um programa vem depois do outro, sempre) e tem acesso restrito. A transmissão é unidirecional e nada indica que isso mude nos próximos anos. A bidirecionalidade está associada apenas à interatividade, onde o telespectador pode enviar informações de volta para a emissora. Essa característica estrutural e tecnológica vai determinar o que pode e o que não pode ser feito.
Além disso, a TV aberta se sustenta pela publicidade, ou seja, ela vende a atenção de um determinado número de telespectadores para empresas fazerem anúncios. Conforme a constituição brasileira, a TV é aberta e gratuita, ou seja, não é permitido cobrar para que o telespectador assista ao conteúdo no ar. O mesmo vale para a interatividade, ou não. O tema é controverso e está longe de ter uma legislação específica. O que tende a acontecer é o mercado se adiantar e lançar produtos, serviços e aplicações antes de alguém decidir se pode ou não.
Por falar em negócios, e para mostrar a que o mercado não espera pela burocracia legislativa, vou trazer duas notícias que agitaram os últimos dias. Primeiro um equipamento que baixa arquivos de vídeo da internet e os mostra diretamente na TV, sem a necessidade de qualquer meio, ou mídia, para levar o arquivo do computador para o televisor. Dias depois veio a notícia de que a empresa de TV por assinatura Cablevision foi autorizada pelo governo dos EUA a gravar conteúdos remotamente, gerenciados pelos usuários. São duas iniciativas que confrontam o conservadorismo tradicional da indústria audiovisual, mostrando que a evolução tecnológica se sobrepõe as tentativas de reserva ou garantia de mercado.
No dia 26 de junho a empresa americana Zinnet anunciou o CinemaCube, um player multimídia que busca arquivos na internet, em redes domésticas ou em dispositivos USB. Os dois últimos estão presentes em vários players, inclusive alguns tocadores de DVD. A novidade do CinemaCube está em um cliente Torrent embutido. Com isso, levar o conteúdo baixado da Internet se torna mais fácil, sem a necessidade de gravar DVDs ou ainda de ter uma TV com entrada para drives USB. Os clientes de peer-to-peer Torrent são os mais usados para trocar grandes arquivos de mídia, principalmente vídeo. O dispositivo é conectado diretamente à TV e não conta com capacidade de armazenamento interno, mas pode trabalhar com pen drives e até mesmo discos rígidos externos para gravar e acessar arquivos de vídeo e música. O CinemaCube suporta os formatos de vídeo RM, RMVB, MP2, AVI, H.264, VOB, MOV, MKV, DivX, Xvid, WMV e de áudio MP3, Real Audio, FLAC, AAC, OGG, WAV.
Por enquanto, o CinemaCube está disponível apenas nos Estados Unidos por US$ 89,90 e é compatível com conteúdo em alta definição com até 720 linhas (lembrando que a alta definição no Brasil tem 1080 linhas). Para o Brasil, a Zinwell está em vias de lançar um equipamento similar, mas com capacidade de armazenamento e sem cliente Torrent.
Três dias depois, no dia 29, a Suprema Corte dos Estados Unidos liberou a operadora Cablevision a oferecer um serviço de gravação remota de conteúdo aos seus assinantes. Com isso, o telespectador pode gravar programas sem a necessidade de ter um gravador digital em casa. Os estúdios de Hollywood, bem como radiodifusores norte-americanos, tentaram barrar a oferta da tecnologia, argumentando que, no caso de gravação remota, a operadora teria que pagar uma licença pelo uso deste conteúdo. No entanto, a Suprema Corte não considerou dessa forma, e agora a empresa está liberada para comercializar o serviço de gravação, que vai concorrer com o Tivo, equipamento que grava localmente os programas.
A gravação remota traz um dado novo ao mercado audiovisual, uma vez que a comercialização não é mais feita através de equipamentos, mas sim oferecendo um serviço. De certa forma, trata-se de colocar inteligência nos receptores, dispensando qualquer tipo de parafernália tecnológica. A tão falada supervia da informação parece estar ganhando contorno práticos e mercadológicos, onde a infraestrutura de oferecimento de conteúdos está cada vez mais centrada nos serviços, deixando os equipamentos de lado. Isso representa uma enorme dor de cabeça para a visão tradicional e conservadora das empresas de comunicação, que não estão mais conseguindo garantir e reservar o mercado. A evolução das tecnologias está se sobrepondo ao poder político inerente à atividade da radiodifusão.
Aliado a isso, já tem muitas empresas, inclusive no Brasil, oferecendo locação de filmes on line, sem DVD ou fita VHS. O vídeo é alugado acessando um banco de dados através da internet e assistido da mesma forma. São mostras de conforto que o telespectador busca, e que mais cedo do que muitos esperam, irão alterar consideravelmente a oferta de conteúdo em alta qualidade, coisa que a internet ainda não tem conseguido fazer.
Esses exemplos, aparentemente sem relação com a TV digital, tem tudo a ver com o tema e podem definir inclusive se a TV digital e a interatividade terão sucesso ou não. É preciso ter isso em mente quando pretendemos criar e colocar ima interatividade no ar. Por que o telespectador/usuário vai usar e gastar tempo diante dessa programação interativa se tem acesso a outras tecnologias que podem ser mais atrativas?
A interatividade na TV se insere em um modelo social em que há concorrência com inúmeras outras mídias, como a internet, telefones celulares que mais parecem pequenos computadores, dispositivos de captura de conteúdo como os descritos acima, entre várias outras. Essa concorrência, muitas vezes ilegal, interfere diretamente no tipo de programação que as TVs estão oferecendo. Nos próximos textos iremos mesclar textos técnicos sobre NCL e aprofundaremos esse cenário, onde a criatividade e a percepção do que pode dar certo e no que vale a pena investir farão a diferença.