Quando entrei no curso de jornalismo na UFSC em 1998, o sonho de três em cada quatro estudantes era trabalhar na televisão. A maioria queria ser repórter ou apresentador, mas tinha também os candidatos a editores e cinegrafistas. Quatro anos depois, na formatura, o mercado já não permitia mais esse tipo de planejamento. Os trainees e entrevistas para emprego (estágio era proibido na época) exigiam conhecimentos muito além de saber escrever ou ter uma voz e segurar um microfone. Era necessário dominar pelo menos três funções do quotidiano televisivo, como produzir, escrever e editar. Texto combina sim com software de edição, seja Premiere ou Final Cut.
    No início, essas exigências assustavam, apesar de os alunos terem passado por todas as etapas no laboratório de telejornalismo da universidade. A função de repórter de TV englobava também redigir textos para internet e jornais. A RBS TV de Florianópolis foi uma das pioneiras nas coberturas multimídia internacionais, em que o profissional era um verdadeiro faz tudo, gerando material para a TV, rádio, portais web e jornais. O segredo era dominar todas as etapas da produção da TV e conseguir atender minimamente as demais mídias.
    O que parecia uma simples redução de custos nas viagens ao exterior está se confirmando como tendência em todo setor audiovisual. Tecnologias novas de produção permitem que um único repórter faça a reportagem, capte as imagens, edite e envie o material pronto por satélite ou conexão celular. A maioria das sucursais das emissoras de TV funciona assim mundo afora, com equipes reduzidíssimas.
    Processo semelhante aconteceu nas agências de publicidade e produtoras de conteúdo para web. Há alguns anos ambas tinham profissionais de programação, especialistas em action script ou php. Hoje essa parte é feita pelos designers, que acumularam a função da criação visual com a implementação dos sites. Designers viraram programadores e programadores viraram designers.
    Essa mudança no mercado impacta no perfil profissional que essas empresas buscam. O domínio de toda cadeia de produção passa a ser essencial. O profissional que se limita a saber tudo sobre apenas uma etapa está com os dias contados. No mínimo é preciso saber produzir e editar; gerenciar e apresentar.
    Esse desafio fica ainda maior com a interatividade, que ainda é um enorme enigma na maioria das produções. Da mesma forma que a edição não linear exigiu domínio no uso de software para a produção, a interatividade vai exigir que produtores e editores dominem o processo de programação da informática. Inicialmente as empresas estão contratando profissionais de informática, mas a médio prazo eles serão substituídos por produtores que dominam o desenvolvimento do software.
    Além disso, a vazão dos programas de TV na web começa a reagrupar o mercado de radiodifusão. Novos formatos de programas estão surgindo todos os dias, com producoes exclusivas para web feitas por emissoras abertas de TV.
    Toda essa reconfiguração do mercado significa que o profissional de televisão passa a ser um profissional multimídia, com domínio da produção para as diferentes tecnologias, seja dentro da televisão, seja fora dela. Cabe as universidades e centros de treinamento acompanhar essa velocidade. O mercado não espera pela formação do profissional. Sempre aparecem soluções…