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Estou relendo e agora digerindo página a página o livro Television: technology and cultural form, de Raymond Williams, que trouxe em 1974 uma série de inovações à teoria tradicional da comunicação, baseada no marxismo e no uso nazista dos meios de comunicação. Único teórico da área a fazer uma avaliação focada na relação da tecnologia com a sociedade, com a cultura e com a psicologia, o autor faz entender, mesmo mais de 30 anos depois, como as tecnologias evoluem e porque se superam, mas não se sobrepõe. Retomando os avanços tecnológicos que precederam a televisão, Williams explica como um fenômeno predominantemente econômico impactou a tecnologia, pois historicamente, a televisão foi fruto de uma necessidade social e cultural.
Esse tema, e consequentemente, o autor, ganha relevância com os debates sobre o futuro das tecnologias audiovisuais. Novamente surgem textos afirmando que a TV digital não tem futuro, que futuro é IPTV, ou vídeo na internet (quando as duas tecnologias não são tratadas como sinônimos!), que a alta definição vai acabar com o cinema, e assim por diante.
Fazendo uma analogia ao post abaixo, sobre TV 3-D, já existem 11 salas de cinema tridimensional no Brasil, com lançamentos semanais de producoes voltados para essa tecnologia. É uma resposta do cinema à alta definição e ao som surround, ambos antes apenas disponíveis nas salas escuras e agora disponíveis nas casas de qualquer cidadão com um bom poder aquisitivo. Novamente as tecnologias se superam, mas não se sobrepõe. Da mesma forma como o cinema mudou com a chegada da televisão e o rádio se reformulou com a propagação da televisão, a própria TV está se reformulando por causa dos avanços da internet. Já o cinema está reagindo às novas tecnologias que passam a compor a TV, e que trazem uma qualidade muito melhor de imagem e som.
Geralmente, os analistas desse tema dão uma ênfase muito forte na tecnologia, desconsiderando os aspectos sociais e culturais. A sociedade tem demanda para um sistema de informação e entretenimento em broadcast, que toma a iniciativa e envia informações. Williams explica bem essa demanda na criação do meio de comunicação baseado no broadcast, oriunda da revolução industrial, que reformulou a vida em sociedade e tornou as pessoas mais reclusas em suas casas. Daí a necessidade de conhecer o mundo através de uma mídia broadcast, como rádio ou TV. O autor ainda mostra que o uso político é exceção, como o surgimento do conceito de massa, criado por Göebbels durante o regime nazista. Sob essa ótica, a internet jamais conseguirá substituir totalmente a televisão.
Essa percepção da construção social e cultural da televisão é algo que as críticas políticas da comunicação não conseguem entender e muito menos explicar. Exemplo claro disso é a antecedência da tecnologia sobre o conteúdo. Quando a TV foi criada, primeiro foram construídas as redes de transmissão, durante as décadas de 1930 e 1940. Apenas em 1950 começou a se discutir modelos de conteúdo. O mesmo modelo foi repetido no desenvolvimento de todos os sistemas de TV digital, incluindo o brasileiro.
Abrindo um pouco mais o leque e trazendo os novos contextos sociais e econômicos para a argumentação, fenômenos como os da Cauda Longa, onde o conceito de massa é totalmente irrelevante, assim como o meio, ajudam a entender e compreender a nova relação conteúdo/tecnologia/sociedade/cultura. A mensagem passa a existir em função da pessoa que a recebe ou que a procura, independente do meio, ou da rede, em que ela trafega. Isso é uma mudança radical na percepção do que é televisão e de como fazer conteúdo para TV. O mesmo vale para o cinema, cuja indústria e seus modelos de distribuição estão sendo constantemente repensados em função do acesso universal e gratuito (pirata) aos filmes. As vezes é interessante e necessário voltar ao passado para entender o presente.