Dezembro de 2008


    Estou relendo e agora digerindo página a página o livro Television: technology and cultural form, de Raymond Williams, que trouxe em 1974 uma série de inovações à teoria tradicional da comunicação, baseada no marxismo e no uso nazista dos meios de comunicação. Único teórico da área a fazer uma avaliação focada na relação da tecnologia com a sociedade, com a cultura e com a psicologia, o autor faz entender, mesmo mais de 30 anos depois, como as tecnologias evoluem e porque se superam, mas não se sobrepõe. Retomando os avanços tecnológicos que precederam a televisão, Williams explica como um fenômeno predominantemente econômico impactou a tecnologia, pois historicamente, a televisão foi fruto de uma necessidade social e cultural.
    Esse tema, e consequentemente, o autor, ganha relevância com os debates sobre o futuro das tecnologias audiovisuais. Novamente surgem textos afirmando que a TV digital não tem futuro, que futuro é IPTV, ou vídeo na internet (quando as duas tecnologias não são tratadas como sinônimos!), que a alta definição vai acabar com o cinema, e assim por diante.
    Fazendo uma analogia ao post abaixo, sobre TV 3-D, já existem 11 salas de cinema tridimensional no Brasil, com lançamentos semanais de producoes voltados para essa tecnologia. É uma resposta do cinema à alta definição e ao som surround, ambos antes apenas disponíveis nas salas escuras e agora disponíveis nas casas de qualquer cidadão com um bom poder aquisitivo. Novamente as tecnologias se superam, mas não se sobrepõe. Da mesma forma como o cinema mudou com a chegada da televisão e o rádio se reformulou com a propagação da televisão, a própria TV está se reformulando por causa dos avanços da internet. Já o cinema está reagindo às novas tecnologias que passam a compor a TV, e que trazem uma qualidade muito melhor de imagem e som.
    Geralmente, os analistas desse tema dão uma ênfase muito forte na tecnologia, desconsiderando os aspectos sociais e culturais. A sociedade tem demanda para um sistema de informação e entretenimento em broadcast, que toma a iniciativa e envia informações. Williams explica bem essa demanda na criação do meio de comunicação baseado no broadcast, oriunda da revolução industrial, que reformulou a vida em sociedade e tornou as pessoas mais reclusas em suas casas. Daí a necessidade de conhecer o mundo através de uma mídia broadcast, como rádio ou TV. O autor ainda mostra que o uso político é exceção, como o surgimento do conceito de massa, criado por Göebbels durante o regime nazista. Sob essa ótica, a internet jamais conseguirá substituir totalmente a televisão.
    Essa percepção da construção social e cultural da televisão é algo que as críticas políticas da comunicação não conseguem entender e muito menos explicar. Exemplo claro disso é a antecedência da tecnologia sobre o conteúdo. Quando a TV foi criada, primeiro foram construídas as redes de transmissão, durante as décadas de 1930 e 1940. Apenas em 1950 começou a se discutir modelos de conteúdo. O mesmo modelo foi repetido no desenvolvimento de todos os sistemas de TV digital, incluindo o brasileiro.
    Abrindo um pouco mais o leque e trazendo os novos contextos sociais e econômicos para a argumentação, fenômenos como os da Cauda Longa, onde o conceito de massa é totalmente irrelevante, assim como o meio, ajudam a entender e compreender a nova relação conteúdo/tecnologia/sociedade/cultura. A mensagem passa a existir em função da pessoa que a recebe ou que a procura, independente do meio, ou da rede, em que ela trafega. Isso é uma mudança radical na percepção do que é televisão e de como fazer conteúdo para TV. O mesmo vale para o cinema, cuja indústria e seus modelos de distribuição estão sendo constantemente repensados em função do acesso universal e gratuito (pirata) aos filmes. As vezes é interessante e necessário voltar ao passado para entender o presente.
    Essa semana foi apresentada a versão beta do Ginga Live CD, que promete facilitar muito os testes de aplicativos. O objetivo do Ginga Live CD é oferecer um ambiente de testes de aplicações NCL e NCLua com opções para busca de conteúdo a partir de diversas fontes.

    O CD vem com uma versão de Linux pré-instalada, voltado para público leigo em Linux e que não domina os recursos desse sistema operacional. Junto vem uma implementação de referência do Ginga-NCL e uma interface gráfica avançada, que facilita a execução de aplicações NCL e NCLua. Nesta versão Beta, as aplicações podem ser buscadas do próprio CD, que contém alguns exemplos, do Clube NCL e do dispositivo de armazenamento USB de preferência do produtor de conteúdo NCL (pendrives, HDs externos, etc.).

    Com este CD, o desenvolvedor de aplicações tem à disposição uma plataforma simples e fácil de usar, ao mesmo tempo poderosa em opções para busca de conteúdos. O pessoal do Telemídia lembra que a versão beta ainda está em testes e tem algumas restrições. Por isso, o lançamento oficial do CD deve ficar para janeiro.

Enquanto o Brasil discute a falta de conteúdo em alta definição na TV aberta, nos EUA há abundância. Por um lado, mais da metade do conteúdo oferecido pelas TVs por assinatura já são HD; por outro, começa a ser oferecido conteúdo tridimensional em alta definição.
A Associação Nacional de Basquete (NBA, do inglês National Basketball Association) vai transmitir ao vivo e em alta definição tridimensional o jogo anual das estrelas, que vai ser realizado em fevereiro de 2009. 80 cinemas, equipados com projeção 3-D, vão receber o sinal em 35 Estados americanos. A NBA tem patrocinado e oferecido vários eventos gravados com tecnologia tridimensional, mas o evento do ano que vem será o primeiro com transmissão ao vivo. A transmissão vai ser num sábado, dia 14 de fevereiro, com co-produção da Turner Sports. Para assistir a transmissão serão necessários óculos especiais; a entrada vai custar entre $18 e $22.
Além da iniciativa da NBA, a NFL (National Football League) também grava jogos em 3-D. A Fox Sports já anunciou que vai fazer transmissões 3-D na próxima Consumer Electronics Show.
São várias iniciativas que apostam no 3-D como o futuro da alta definição. É esperar para ver. Vale lembrar que os EUA irão desligar as tranmissões analógicas da TV também em fevereiro de 2009.

      Já está disponível on line parte dos textos do EuroITV 2008, maior congresso de TV interativa do mundo. O congresso desse ano foi realizado na Áustria, em julho passado, contando com participações de universidades e empresas do mundo todo. Representando o Brasil, os pesquisadores da PUC-Rio Rodrigo Laiola Guimarães, Romualdo Monteiro de Resende Costa e Luiz Fernando Gomes Soares apresentaram mais um trabalho sobre os progressos da ferramenta de autoria Composer: Composer: Authoring Tool for iTV Programs.
      Os anais do EuroITV são divididos em dois volumes: O volume principal, com a seleção dos melhores trabalhos, é vendido a $69.95, diretamente pela Springer. Já o volume adjunto, com os demais papers aprovados no congresso, pode ser baixado gratuitamente no site do evento.
      Em sua sexta edição, o congresso discute os avanços da interatividade mundo afora. Tem excelentes textos oriundos de países do leste europeu e da Ásia, com exemplos de serviços e aplicações totalmente desconhecidos no ocidente por causa das limitações do idioma. O sétimo congresso, de 2009, acontecerá na Bélgica, e está com o Call for papers aberto. É uma boa fonte de informações para entender os progressos da interatividade no mundo, e porque não, buscar idéias para o Brasil.

    Ou seria televisão mais política?

Terminei de ler, ainda não de digerir, o excelente livro do jornalista Renato Cruz, lançando semana passada: TV digital no Brasil: tecnologia versus política. Além de demonstrar um profundo conhecimento do assunto, Renato dá uma aula sobre como escrever e cativa na leitura. Sempre relacionando casos reais à tecnologia, o autor consegue trazer para a realidade quotidiana um assunto difícil e que costuma passar longe do debate público: políticas públicas para o setor de radiodifusão. Para mim, que acompanho o processo decisório e as pesquisas da área desde 1999, o livro foi um mergulho ao passado, com lembranças boas dos resultados alcançados, e frustrações, justamente pelo processo político que predominou desde sempre.
O livro começa tratando esse assunto espinhoso com um panorama histórico da TV no Brasil, onde mostra as raízes do quadro monopolista, mas frágil, da produção e transmissão do conteúdo audiovisual. Ainda no começo, o autor traça um paralelo entre o mundo unidirecional da televisão com a realidade das tecnologias convergentes, que além de agregar inúmeras tecnologias, traz o usuário para o centro do processo, tanto de produção quanto de consumo. Ao ver a história da internet e de como a bolha estourou em 2000, é possível compreender porque o setor de radiodifusão tem tanto medo da convergência de redes.
O livro mostra o gigantesco esforço do setor de radiodifusão para manter o mercado atual, ameaçado por todos os lados pelas novas tecnologias. Fazendo um paralelo entre a indústria de telecomunicações, na qual a convergência de tecnologias de transmissão de dados colocou em xeque o modelo de tráfego de circuitos, gerando uma revolução no setor, o autor mostra que uma das poucas possibilidades de garantia do modelo atual de negócios das TVs está no uso da força política. Tecnologicamente a TV está atrasada e ultrapassada. Do ponto de vista comercial, o modelo resiste, até por falta de alternativas, pois ainda não surgiu um modelo de geração de receita melhor e mais proveitoso para o setor. Apesar disso, sempre é bom lembrar que um único software (Skype), baseado em um conceito novo e inovador, derrubou o modelo de negócios complexo e secular da telefonia.

Uma das críticas que sempre fazíamos durante as pesquisas do SBTVD, era sobre a falta da discussão regulatória e mercadológica. Acreditávamos que, paralelo à pesquisa tecnológica, deveria ocorrer também um debate sobre mudanças de legislação (a da radiodifusão é do começo da década de 1960, quando a Embratel ainda não fora criada), e sobre novos modelos de negócio. Lendo a pesquisa do Renato, fica evidente o porquê da ausência desses dois temas. Não interessava ao mercado debater isso, pois nos bastidores era travada um luta justamente para manter o atual quadro e esconder ou abafar as novas possibilidades.
O autor afirma que os modelos americano e europeu poderiam ser mais baratos para o consumidor. Pode ser verdade, apesar da colcha de retalhos que foi o relatório final do CPqD, questionado por praticamente todos os participantes das pesquisas do SBTVD. Além de vários erros conceituais, o relatório não contemplou todos os resultados dos consórcios contratados pela Finep, gerando desconfiança e questionamentos sobre as conclusões. Já durante as pesquisas, o CPqD começou as ser isolado das decisões centrais, tanto que a demonstração dos resultados, feita na USP em dezembro de 2005, não contou com a participação do instituto, tendo sido organizado por lideranças dos consórcios.

O livro mostra também a abordagem equivocada ao deixar isolados das pesquisas tanto a indústria eletroeletrônica quando o setor de radiodifusão. Essa decisão política foi muito questionada por nós durante as pesquisas, pois considerávamos que para fazer um projeto coerente com o país, escutar esses dois setores era fundamental. Lembro que as primeiras reuniões com esses setores, não oficiais, pois não eram chanceladas nem pelo governo nem pelo CPqD, foram realizadas de forma ad hoc em São Paulo em setembro de 2005, já quase no final das pesquisas. Essa foi a alternativa encontrada pelos pesquisadores para englobar os requisitos técnicos dos diferentes atores. A viabilidade do Ginga começou a ser sacramentada nessas reuniões, onde as emissoras de TV e as empresas fabricantes de TVs, diretamente interessadas nos resultados do projeto, puderam ser ouvidas pela primeira vez por quem estava pesquisando o sistema.

O livro não se aprofunda em questões técnicas. Até por isso sua leitura é muito agradável. No entanto, é necessário lembrar que, em 2005, o sistema ATSC era totalmente inviável para o Brasil, pois não permitia recepção com antenas internas, presentes em 47% das residências brasileiras. Isso sem considerar o fato do ATSC não dispor, na época, de transmissão para receptores móveis. Já o DVB, sistema europeu, tinha problemas ainda maiores. Na época das pesquisas não possuía alta definição e a transmissão para dispositivos móveis, o DVB-H, ainda não fora testado. Além disso, nas várias reuniões que participei com representes do sistema, eles jamais abriram a possibilidade de incorporar codificação H.264 e fazer alterações no middleware MHP. Isso não está no relatório final do CPqD. Hoje tanto os sistema ATSC quanto DVB já foram atualizados para a codificação H.264; o MHP está a míngua, praticamente descartado pelo próprio consórcio devido a sua ineficiência, tanto de recursos de software quanto de desperdício de recursos de hardware. Nem é preciso falar que o DVB não foi adotado integralmente por nenhum país europeu. Todos fizeram alterações ou adaptações. Tecnicamente, a adoção do ATSC ou do DVB teria representado um atraso enorme para o país. Portanto, mesmo que a decisão não tivesse sido política, como foi, dificilmente ela teria sido diferente. Havia, e há, elementos técnicos suficientes para justificar a escolha do OFDM-BST como padrão de modulação. No entanto, convém não desconsiderar os preços dos receptores, que talvez pudessem ser mais baixos, embora menos sofisticados tecnologicamente.
Em todo caso, sempre é bom ter em mente o poder político do setor de radiodifusão, que, se garantindo por todos os lados, técnica e politicamente, ainda é capaz de determinar os rumos da política setorial no país. O PL 29 que o diga.

Algumas informações interessantes, vinculadas na newsletter da Tela Viva de ontem. A Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos) prevê uma venda de 470 mil receptores de TV digital até o final do ano, juntando set top boxes, celulares, TVs portáteis e TV com receptor embutido. A associação considera a expectativa de venda de 100 a 120 mil conversores, 90 mil aparelhos de televisão com receptor embutido, 180 mil celulares com TV digital e 100 mil receptores portáteis. Já o Fórum do SBTVD é menos otimista, e trabalha com um venda de 300 mil receptores até o final do ano.
A avaliação do setor eletroeletrônico é muito positiva. Walter Duran, diretor de tecnologia da Philips do Brasil, e Benjamim Sicsú, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Samsung para a América Latina, se dizem satisfeitos com as vendas do primeiro ano.
A matéria traz ainda números sobre a venda de TVs: em 2008 foram vendidos entre 9 milhões a 9,5 milhões de aparelhos de televisão no país. Destes, 2,5 milhões são de tela plana (plasma ou LCD). Considerando apenas as classes A e B+, 19% das residências possui TV de tela plana, não necessariamente full DH.
Finalmente um estudo sobre interatividade: “Já o estudo qualitativo, realizado pela Voltage, mostrou que a característica mais desejada pelos consumidores quando o assunto é televisão é a interatividade, o que agrega características como conectividade e convergência. O desejo de ter comunicação via TV e que o aparelho se torne a central de entretenimento da casa também foram alguns dos principais resultados apontados pelo estudo, que foi realizado na cidade de São Paulo, com 20 homens e mulheres da classe A, de 20 a 40 anos”.

    Hoje a TV digital completa um ano. Apesar dos problemas enfrentados, como preço dos set top boxes, embate entre governo e indústria, ausência da interatividade, pouco conteúdo em HD, é uma data que tem motivos para ser comemorada. São mais de 40 milhões de pessoas cobertas pelo sinal digital; população maior que muitos países. Isso representa um enorme sucesso técnico. Comercialmente, as vendas estão bem abaixo das expectativas criadas ano passado, mas acima das minhas expectativas pessoais. Diz a Eletros que quase 500 mil receptores foram vendidos. Se isso realmente for verdade, podemos pensar em 1 milhão de receptores comercializados facilmente no ano que vem, talvez ainda no primeiro semestre. O Japão levou 3 anos para vender um milhão de receptores; a Inglaterra, cinco anos. Para mim é uma surpresa, pois considerando que no começo todas as tecnologias são mais caras, que o ministro Hélio Costa fez propaganda contra, pedindo para as pessoas não comprarem, que alta definição ainda é exceção e não regra, que a interatividade ainda está apenas no papel, que a sociedade desconhece a maioria do benefícios da TV digital, eu imaginava uma venda menor.
    Com todos esses percalços, resta esperar o ano que vem, que promete ser (ainda) melhor, com o lançamento de receptores com interatividade. O que estaremos comentando daqui a um ano? estaremos comemorando ou lamentando?

    A propósito, o UOL Tecnologia traz hoje um conjunto de matérias sobre o aniversário da TV digital. A repórter Silvana Salles conversou comigo sobre a baixa adesão da audiência. A matéria pode ser conferida AQUI.