Depois de muita gente questionar se a interatividade tem mesmo futuro na TV brasileira, vou relacionar neste post apenas 10 razões que justificam todo expectativa que está sendo criada. Explicando apenas que quando falo de interatividade, vou muito além do que costuma ser tratado como tal: compras, acesso a e-mail, acesso a banco, consulta a informações genéricas. Penso a interatividade como algo que acrescenta valor à programação da TV, que agregue informação e entretenimento. Logo, as aplicações interativas devem focar o conteúdo da TV, ou seja, a programação que está no ar, e propor novos conteúdos, inovadores, que partam do princípio de que melhorar a programação é respeitar a inteligência e a vontade do telespectador. E isso é muito mais que vender vestidos ou pizza.
Vamos as 10 razões:
1. O povo quer aparecer na TV. Fato corriqueiro na maioria dos programas de TV, as pessoas fazem questão de aparecer e de se expor diante das câmeras. A maioria dos programas vespertinos partem da participação de pessoas anônimas para seduzir a audiência. A exposição de conflitos familiares, somado ao sonho de ser visto na televisão, representam um prato cheio para as produções. Além disso, em todos os eventos esportivos transmitidos pela TV aberta é possível encontrar cartazes com recados para a produção ou para familiares. Muitos estudos sociológicos (a maioria nem um pouco confiável) tratam desse fenômeno.
2. A audiência já participa da TV. Desde o palhaço Carequinha, na extinta TV Tupi, que exigiu a presença de crianças no palco, a programação da televisão é pautada pela participação da audiência. Os maiores sucessos da TV brasileira dos últimos anos têm a participação como arma central na briga pela audiência. Votações em reality shows, onde não são oferecidos prêmios, batem recordes de participação a cada nova temporada. Enquetes em programas jornalísticos e de variedades e seções como “vídeo do internauta” mostram uma tendência das pessoas a fazer parte da programação.
3. Ver TV não é uma atividade passiva. Expandido a razão número 2, as pessoas reagem ativamente a mensagem da televisão, se manifestando positiva ou negativamente diante da informação. O fato de enviar vídeos, mensagens eletrônicas, participar de blogs de apresentadores, ou então levar o filho para tomar vacina, se emocionar e enviar ajuda para os desabrigados pelas enchentes em Santa Catarina, indica uma relação muito mais próxima do meio televisão do que simples passividade e domínio apregoado por teorias esdrúxulas da comunicação.
4. Novos recursos atraem. Sempre que uma tecnologia é desenvolvida e lançada, ela desperta a curiosidade em parte da população, que passa a formar a opinião sobre os recursos dessa inovação. A interatividade, por sua vez, está atrelada a uma mídia quase centenária, com poucas inovações. Transformar essa essa mídia desperta interesses e paixões (afinal, o forte da televisão é a emoção) semelhantes a outras inovações, que em escalas diferentes passaram pelo cinema (cor e som), rádio (música e segmentação) e internet (sempre mudando e criando). Daí resultam previsão apocalípticas de que a televisão vai para a internet, que a TV digital será superada pelo IPTV etc… nenhuma dessas previsões resiste a um questionamento mais profundo.
5. Adaptabilidade. O Ginga, middleware do ISDB-Tb (nome comercial do Sistema Brasileiro de TV Digital) inova em alguns aspectos cruciais sobre o ato de ver televisão. Uma dessas inovação é a possibilidade de adaptar as interatividades para o perfil do usuário. É possível, por exemplo, uma família assistir ao mesmo programa e uma criança participar de um jogo infantil, enquanto o pai responde perguntas e a mãe busca mais informação sobre os atores. Esse recurso tende a personalizar a interatividade, algo impossível em todos os demais sistemas de TV interativa já desenvolvidos em outros países.
6. Multidispositivo. Para que a adaptabilidade possa ser implantada de fato, é necessário usar mais de um dispositivo de interação, afinal a TV só tem um controle remoto, o que inviabiliza mais de uma pessoa interagindo. O Ginga possibilita também que qualquer equipamento com tela e tecnologia bluetooth se conecte à televisão e sirva de dispositivo de interatividade. Assim, um celular pode virar controle remoto da televisão, e a interface da interatividade pode aparecer na tela do celular ao invés de estar na tela da TV. Dessa forma, a criança pode jogar o jogo do programa no controle remoto, enquanto o pai responde as perguntas usando seu celular e a mãe busca mais informações usando um lap top sem acesso a internet.
7. Quem usa os recursos interativos da TV por assinatura não consegue mais ficar sem eles. Recursos simples e até certo ponto rudimentares já estão presentes a pelo menos uma década na TV por assinatura. E acreditem: são viciantes. Um exemplo disso é o guia de programação, uma tela que aparece sobreposta ao vídeo e que permite visualizar os programas que estão no ar e os que vêm na seqüencia, horários e sinopses. Tudo sem trocar de canal. Uma facilidade que faz muita falta quando alguém acostumado a TV digital por assinatura volta para a TV analógica. É só perguntar para quem já usou.
8. Os setores econômicos audiovisuais estão apostando nos novos recursos. Emissoras de TV, fábricas de receptores, indústria de software, empresas especializadas em aplicativos, empresas de treinamento, agências de publicidade etc. O investimento já feito na interatividade é gigantesco, com uma série de empresas criadas especificamente para esse novo mercado. São atores econômicos extremamente importantes atuando em prol do desenvolvimento desse mercado, que têm na inovação e geração de novos modelos de negócio sua atuação principal. Todas as emissoras de TV de SP já buscaram treinamentos para desenvolver conteúdo interativo e, com poucas exceções, estão fazendo testes internamente.
9. A programação da TV é propícia para participação. Durante os quase 60 anos da TV brasileira a programação foi consolidada com base em diálogos entre os apresentadores e os telespectadores. Dessa forma, quem vê televisão se sente convidado a participar da programação, aprendendo e enviando informações. A maior parte da população aprendeu a usar o serviço de mensagens do celular vendo programas de televisão que incentivavam o envio de SMS. Esse reconhecimento dos apresentadores, que explicam dialogando, será a força motriz da implantação e do uso da interatividade em larga escala.
10. Criatividade dos produtores. A televisão, por definição, precisa se reinventar todos os dias, trazendo novas formas de entretenimento e de informação. Trabalhar em TV é ter que se superar muito todos os dias, indefinidamente. Soluções criativas e pautas atraentes fazem parte do cotidiano da produção e a interatividade será mais uma ferramenta de vasão dessas criações. A adaptabilidade e os múltiplos dispositivos abrem um mundo de possibilidades para conteúdos novos na televisão.
Finalmente, me parece que essa é uma aposta que vale a pena e com altíssimas probabilidade de ganho. A interatividade tem tudo para ser um enorme sucesso e revolucionar a TV brasileira, desde que a implantação seja adequada e não comprometa iniciativas mais ousadas. Planejamento e estratégias adequadas são as palavras-chave nesse momento. Além de muita criatividade, é claro.