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A interatividade é algo relativamente novo. Ou não, a depender da análise. Já na década de 1950 emissoras americanas testavam programas que necessitavam da participação dos telespectadores. Mas o que interessa para essa análise, a interatividade digital, mediada pela informática, surgiu no final da década de 1990, com mais promessas do que realizações. O modelo de maior sucesso é britânico, capitaneado pela BBC, com vários programas bem conceituados e bem ranqueados pelos índices de audiência.
No Brasil, a Sky trouxe essa ferramenta no mesmo período, com uma grande variedade de aplicações. A de maior sucesso é sem dúvida o guia de programação, famoso EPG, que permite consultar a programação de todos os canais na própria TV. Durante muitos anos esse recurso foi um diferencial em relação à concorrência. Hoje, todas as TVs por assinatura digitais têm esses e outros recursos, como: tabelas de resultados esportivos, horóscopo, previsão do tempo, grade de programação, jogos. Ou seja, a interatividade cativou o público da TV por assinatura.
Já na TV aberta, o cenário é um pouco diferente. Devido a restrições tecnológicas - a TV só está sendo digitalizada agora -, a programação permaneceu estática durante muitos anos, sem inovações técnicas desde a transmissão do sinal em cores. Essa estabilidade mercadológica, aliado ao monopólio da credibilidade da informação no país (os telejornais ditam o que é notícia e o que não é), gerou uma acomodação e um repúdio às novas tecnologias por parte da maioria das produções das emissoras. Tecnologia, incluindo a internet, que só recentemente passou a ser vista como oportunidade, sempre foi e ainda é assunto da engenharia e da informática. E não deveria ser, afinal é a produção que gera o conteúdo e que deveria gerir essas oportunidades.
Esse afastamento das tecnologias gera receios e dúvidas sobre um tema não compreendido. O uso da internet só foi percebido recentemente como ferramenta de comunicação entre a criação/produção das TVs e o público. Surgiram blogs e há planos de usar redes sociais para aproximar artistas da audiência. A interatividade está trilhando o mesmo caminho. Vista como problemática num primeiro momento, tende a ter seus recursos usados para aproximar a produção da audiência, gerando novas formas de comunicação, além do formato unidirecional da TV atual. Usar o controle remoto para dar um feedback é muito mais cômodo do que telefone, internet ou SMS.
Como a maioria das áreas artísticas das TVs desconhece os recursos da interatividade e as potencialidades do Ginga, surgem críticas totalmente deslocadas da realidade. Uma das principais se refere a posição e ao uso da interface da TV, que deveria ser exclusivamente vídeo. Argumenta-se que sobrepor ou redimensionar o vídeo pode comprometer a percepção sensorial da imagem, ainda mais em “maravilhas” como a alta definição.
Esse argumento não se sustenta mais, pois como já abordado em outros posts, com o Ginga não é mais necessário, ou pré-requisito, o uso da tela da TV para a interatividade. Pode-se usar qualquer tela de qualquer aparelho eletrônico com bluetooth, o que permite, além da limpeza da tela, que mais de uma pessoa interaja ao mesmo tempo no mesmo programa. Essas inovações abrem ilimitadas possibilidades de interatividade e novos modelos de negócio e de geração de valor. Apesar de alvoroçar parte do mercado, insatisfeito com a TV tradicional e de olho na web, o novo sempre gera dúvidas e inseguranças, o que dá margem a resistência.
A falta de informações, aliada ao receio de mexer em um mercado monopolizado e extremamente lucrativo, desvirtua o debate. Em vez de discutir temas como processos de produção e desenvolvimento da interatividade, possibilidades de novos conteúdos, trabalho conjunto e interdisciplinar dentro da empresa, criatividade etc, se debate a pertinência das linguagens de programação e questões políticas sobre quem deve fazer o que. Ao trazer o software para o dia-a-dia da produção audiovisual, surgem elementos estranhos a quase todos os produtores de programas de TV, que na sua formação universitário passaram longe da informática. Juntar esses dois mundo não é trivial.
Outro argumento usual é de que as pessoas não têm interesse em interagir. Afirma-se que a TV é uma experiência passiva, onde o telespectador apenas quer receber informações. Me pergunto se a TV hoje é assim por uma demanda da audiência ou por uma imposição do meio. Seguindo a linha de raciocínio do post anterior, abaixo, me parece óbvio que as pessoas não participam mais da televisão por ausência de oportunidades. Isso não significa que todos os programas deverão ser interativos e que a TV atual vai desaparecer. Pelo contrário: ambas as formas de ver TV tem demanda. Cabe disponibilizá-las e analisar a aceitação do público.
Além de dinamizar a programação, que está perdendo audiência constantemente no país, a interatividade pode trazer novas audiências, que agora estão dispersas em outras tecnologias ou em outras atividades por considerarem a TV chata e por não terem paciência para assistir algumas horas de vídeo sem participação. Sucessos de vídeo na web merecem atenção, pois a nova geração, pessoas com menos de 20 anos, está aprendendo a fazer sua própria programação e não se sujeita mais a imposições de fluxo contínuo, como é o da TV.
Nos últimos anos a TV tem perdido muita audiência. E nada indica mudança nessa tendência. Em um mundo onde tudo muda com extrema rapidez, a única exceção é a TV. Até o cinema já se adaptou a novos paradigmas, com captação digital, filmes para celulares, séries oferecidas gratuitamente na web. Nesse contexto, não é exagero afirmar que a interatividade pode ser uma das poucas alternativas de subsistência de um modelo de televisão parecido com o atual, onde o monopólio da geração de conteúdo pode ser mantido. Em todos os outros cenários, esse monopólio é quebrado.
Isso é bom ou ruim?
