Novembro de 2008


    A interatividade é algo relativamente novo. Ou não, a depender da análise. Já na década de 1950 emissoras americanas testavam programas que necessitavam da participação dos telespectadores. Mas o que interessa para essa análise, a interatividade digital, mediada pela informática, surgiu no final da década de 1990, com mais promessas do que realizações. O modelo de maior sucesso é britânico, capitaneado pela BBC, com vários programas bem conceituados e bem ranqueados pelos índices de audiência.

    No Brasil, a Sky trouxe essa ferramenta no mesmo período, com uma grande variedade de aplicações. A de maior sucesso é sem dúvida o guia de programação, famoso EPG, que permite consultar a programação de todos os canais na própria TV. Durante muitos anos esse recurso foi um diferencial em relação à concorrência. Hoje, todas as TVs por assinatura digitais têm esses e outros recursos, como: tabelas de resultados esportivos, horóscopo, previsão do tempo, grade de programação, jogos. Ou seja, a interatividade cativou o público da TV por assinatura.

    Já na TV aberta, o cenário é um pouco diferente. Devido a restrições tecnológicas - a TV só está sendo digitalizada agora -, a programação permaneceu estática durante muitos anos, sem inovações técnicas desde a transmissão do sinal em cores. Essa estabilidade mercadológica, aliado ao monopólio da credibilidade da informação no país (os telejornais ditam o que é notícia e o que não é), gerou uma acomodação e um repúdio às novas tecnologias por parte da maioria das produções das emissoras. Tecnologia, incluindo a internet, que só recentemente passou a ser vista como oportunidade, sempre foi e ainda é assunto da engenharia e da informática. E não deveria ser, afinal é a produção que gera o conteúdo e que deveria gerir essas oportunidades.

    Esse afastamento das tecnologias gera receios e dúvidas sobre um tema não compreendido. O uso da internet só foi percebido recentemente como ferramenta de comunicação entre a criação/produção das TVs e o público. Surgiram blogs e há planos de usar redes sociais para aproximar artistas da audiência. A interatividade está trilhando o mesmo caminho. Vista como problemática num primeiro momento, tende a ter seus recursos usados para aproximar a produção da audiência, gerando novas formas de comunicação, além do formato unidirecional da TV atual. Usar o controle remoto para dar um feedback é muito mais cômodo do que telefone, internet ou SMS.

    Como a maioria das áreas artísticas das TVs desconhece os recursos da interatividade e as potencialidades do Ginga, surgem críticas totalmente deslocadas da realidade. Uma das principais se refere a posição e ao uso da interface da TV, que deveria ser exclusivamente vídeo. Argumenta-se que sobrepor ou redimensionar o vídeo pode comprometer a percepção sensorial da imagem, ainda mais em “maravilhas” como a alta definição.

    Esse argumento não se sustenta mais, pois como já abordado em outros posts, com o Ginga não é mais necessário, ou pré-requisito, o uso da tela da TV para a interatividade. Pode-se usar qualquer tela de qualquer aparelho eletrônico com bluetooth, o que permite, além da limpeza da tela, que mais de uma pessoa interaja ao mesmo tempo no mesmo programa. Essas inovações abrem ilimitadas possibilidades de interatividade e novos modelos de negócio e de geração de valor. Apesar de alvoroçar parte do mercado, insatisfeito com a TV tradicional e de olho na web, o novo sempre gera dúvidas e inseguranças, o que dá margem a resistência.

    A falta de informações, aliada ao receio de mexer em um mercado monopolizado e extremamente lucrativo, desvirtua o debate. Em vez de discutir temas como processos de produção e desenvolvimento da interatividade, possibilidades de novos conteúdos, trabalho conjunto e interdisciplinar dentro da empresa, criatividade etc, se debate a pertinência das linguagens de programação e questões políticas sobre quem deve fazer o que. Ao trazer o software para o dia-a-dia da produção audiovisual, surgem elementos estranhos a quase todos os produtores de programas de TV, que na sua formação universitário passaram longe da informática. Juntar esses dois mundo não é trivial.

    Outro argumento usual é de que as pessoas não têm interesse em interagir. Afirma-se que a TV é uma experiência passiva, onde o telespectador apenas quer receber informações. Me pergunto se a TV hoje é assim por uma demanda da audiência ou por uma imposição do meio. Seguindo a linha de raciocínio do post anterior, abaixo, me parece óbvio que as pessoas não participam mais da televisão por ausência de oportunidades. Isso não significa que todos os programas deverão ser interativos e que a TV atual vai desaparecer. Pelo contrário: ambas as formas de ver TV tem demanda. Cabe disponibilizá-las e analisar a aceitação do público.

    Além de dinamizar a programação, que está perdendo audiência constantemente no país, a interatividade pode trazer novas audiências, que agora estão dispersas em outras tecnologias ou em outras atividades por considerarem a TV chata e por não terem paciência para assistir algumas horas de vídeo sem participação. Sucessos de vídeo na web merecem atenção, pois a nova geração, pessoas com menos de 20 anos, está aprendendo a fazer sua própria programação e não se sujeita mais a imposições de fluxo contínuo, como é o da TV.

    Nos últimos anos a TV tem perdido muita audiência. E nada indica mudança nessa tendência. Em um mundo onde tudo muda com extrema rapidez, a única exceção é a TV. Até o cinema já se adaptou a novos paradigmas, com captação digital, filmes para celulares, séries oferecidas gratuitamente na web. Nesse contexto, não é exagero afirmar que a interatividade pode ser uma das poucas alternativas de subsistência de um modelo de televisão parecido com o atual, onde o monopólio da geração de conteúdo pode ser mantido. Em todos os outros cenários, esse monopólio é quebrado.
    Isso é bom ou ruim?

Depois de muita gente questionar se a interatividade tem mesmo futuro na TV brasileira, vou relacionar neste post apenas 10 razões que justificam todo expectativa que está sendo criada. Explicando apenas que quando falo de interatividade, vou muito além do que costuma ser tratado como tal: compras, acesso a e-mail, acesso a banco, consulta a informações genéricas. Penso a interatividade como algo que acrescenta valor à programação da TV, que agregue informação e entretenimento. Logo, as aplicações interativas devem focar o conteúdo da TV, ou seja, a programação que está no ar, e propor novos conteúdos, inovadores, que partam do princípio de que melhorar a programação é respeitar a inteligência e a vontade do telespectador. E isso é muito mais que vender vestidos ou pizza.
Vamos as 10 razões:

    1. O povo quer aparecer na TV. Fato corriqueiro na maioria dos programas de TV, as pessoas fazem questão de aparecer e de se expor diante das câmeras. A maioria dos programas vespertinos partem da participação de pessoas anônimas para seduzir a audiência. A exposição de conflitos familiares, somado ao sonho de ser visto na televisão, representam um prato cheio para as produções. Além disso, em todos os eventos esportivos transmitidos pela TV aberta é possível encontrar cartazes com recados para a produção ou para familiares. Muitos estudos sociológicos (a maioria nem um pouco confiável) tratam desse fenômeno.

    2. A audiência já participa da TV. Desde o palhaço Carequinha, na extinta TV Tupi, que exigiu a presença de crianças no palco, a programação da televisão é pautada pela participação da audiência. Os maiores sucessos da TV brasileira dos últimos anos têm a participação como arma central na briga pela audiência. Votações em reality shows, onde não são oferecidos prêmios, batem recordes de participação a cada nova temporada. Enquetes em programas jornalísticos e de variedades e seções como “vídeo do internauta” mostram uma tendência das pessoas a fazer parte da programação.

    3. Ver TV não é uma atividade passiva. Expandido a razão número 2, as pessoas reagem ativamente a mensagem da televisão, se manifestando positiva ou negativamente diante da informação. O fato de enviar vídeos, mensagens eletrônicas, participar de blogs de apresentadores, ou então levar o filho para tomar vacina, se emocionar e enviar ajuda para os desabrigados pelas enchentes em Santa Catarina, indica uma relação muito mais próxima do meio televisão do que simples passividade e domínio apregoado por teorias esdrúxulas da comunicação.

    4. Novos recursos atraem. Sempre que uma tecnologia é desenvolvida e lançada, ela desperta a curiosidade em parte da população, que passa a formar a opinião sobre os recursos dessa inovação. A interatividade, por sua vez, está atrelada a uma mídia quase centenária, com poucas inovações. Transformar essa essa mídia desperta interesses e paixões (afinal, o forte da televisão é a emoção) semelhantes a outras inovações, que em escalas diferentes passaram pelo cinema (cor e som), rádio (música e segmentação) e internet (sempre mudando e criando). Daí resultam previsão apocalípticas de que a televisão vai para a internet, que a TV digital será superada pelo IPTV etc… nenhuma dessas previsões resiste a um questionamento mais profundo.

    5. Adaptabilidade. O Ginga, middleware do ISDB-Tb (nome comercial do Sistema Brasileiro de TV Digital) inova em alguns aspectos cruciais sobre o ato de ver televisão. Uma dessas inovação é a possibilidade de adaptar as interatividades para o perfil do usuário. É possível, por exemplo, uma família assistir ao mesmo programa e uma criança participar de um jogo infantil, enquanto o pai responde perguntas e a mãe busca mais informação sobre os atores. Esse recurso tende a personalizar a interatividade, algo impossível em todos os demais sistemas de TV interativa já desenvolvidos em outros países.

    6. Multidispositivo. Para que a adaptabilidade possa ser implantada de fato, é necessário usar mais de um dispositivo de interação, afinal a TV só tem um controle remoto, o que inviabiliza mais de uma pessoa interagindo. O Ginga possibilita também que qualquer equipamento com tela e tecnologia bluetooth se conecte à televisão e sirva de dispositivo de interatividade. Assim, um celular pode virar controle remoto da televisão, e a interface da interatividade pode aparecer na tela do celular ao invés de estar na tela da TV. Dessa forma, a criança pode jogar o jogo do programa no controle remoto, enquanto o pai responde as perguntas usando seu celular e a mãe busca mais informações usando um lap top sem acesso a internet.

    7. Quem usa os recursos interativos da TV por assinatura não consegue mais ficar sem eles
    . Recursos simples e até certo ponto rudimentares já estão presentes a pelo menos uma década na TV por assinatura. E acreditem: são viciantes. Um exemplo disso é o guia de programação, uma tela que aparece sobreposta ao vídeo e que permite visualizar os programas que estão no ar e os que vêm na seqüencia, horários e sinopses. Tudo sem trocar de canal. Uma facilidade que faz muita falta quando alguém acostumado a TV digital por assinatura volta para a TV analógica. É só perguntar para quem já usou.

    8. Os setores econômicos audiovisuais estão apostando nos novos recursos. Emissoras de TV, fábricas de receptores, indústria de software, empresas especializadas em aplicativos, empresas de treinamento, agências de publicidade etc. O investimento já feito na interatividade é gigantesco, com uma série de empresas criadas especificamente para esse novo mercado. São atores econômicos extremamente importantes atuando em prol do desenvolvimento desse mercado, que têm na inovação e geração de novos modelos de negócio sua atuação principal. Todas as emissoras de TV de SP já buscaram treinamentos para desenvolver conteúdo interativo e, com poucas exceções, estão fazendo testes internamente.

    9. A programação da TV é propícia para participação. Durante os quase 60 anos da TV brasileira a programação foi consolidada com base em diálogos entre os apresentadores e os telespectadores. Dessa forma, quem vê televisão se sente convidado a participar da programação, aprendendo e enviando informações. A maior parte da população aprendeu a usar o serviço de mensagens do celular vendo programas de televisão que incentivavam o envio de SMS. Esse reconhecimento dos apresentadores, que explicam dialogando, será a força motriz da implantação e do uso da interatividade em larga escala.

    10. Criatividade dos produtores. A televisão, por definição, precisa se reinventar todos os dias, trazendo novas formas de entretenimento e de informação. Trabalhar em TV é ter que se superar muito todos os dias, indefinidamente. Soluções criativas e pautas atraentes fazem parte do cotidiano da produção e a interatividade será mais uma ferramenta de vasão dessas criações. A adaptabilidade e os múltiplos dispositivos abrem um mundo de possibilidades para conteúdos novos na televisão.

    Finalmente, me parece que essa é uma aposta que vale a pena e com altíssimas probabilidade de ganho. A interatividade tem tudo para ser um enorme sucesso e revolucionar a TV brasileira, desde que a implantação seja adequada e não comprometa iniciativas mais ousadas. Planejamento e estratégias adequadas são as palavras-chave nesse momento. Além de muita criatividade, é claro.

    Está na coluna do Daniel Castro, na Folha de hoje: TV de Lula faz um ano sem conteúdo, sinal e público. O colunista traz a notícia de que após um ano de implantação desastrada, a TV “pública” brasileira só cobre Rio, Brasília e São Luís, além de parabólicas, e dá traço no Ibope.
    Sempre fui crítico do processo de criação dessa TV, que de público tem pouca coisa, pois trata-se de um projeto político mal conduzido. Espero estar enganado, e ser surpreendido pelo cumprimento das eternas promessas de melhora na qualidade e quantidade de conteúdo, mas o cenário hoje não é animador. A programação da TV Brasil é semelhante, senão a mesma, da TVE, com poucos programas inéditos diários, reprises e produções mal feitas, sem qualidade e sem interesse público. Isso para um orçamento anual de R$ 350 milhões, ou seja, quatro vezes os custos de todas as pesquisas da TV digital brasileira. Uma TV pública de fato seria de grande utilidade para o país, com uma alternativa prática ao conteúdo das TVs comerciais, que privilegiam modelos e fórmulas prontas, cujo sucesso é questionado diariamente pelas medições de audiência.

    Outra notícia que circulou no final de semana é que finalmente o poder público está se unindo para criar o operador de rede, figura que centraliza toda infra-estrutura de transmissão, das TV estatais e públicas. Já era tempo de isso acontecer, pois uma única torre de transmissão pode dar conta de oferecer o sinal de todas as TV não comerciais, incluindo as executivas, legislativas, comunitárias, universitárias e as que se dizem públicas, como a Cultura e a TV Brasil. O projeto, se for implementado mesmo, vai representar uma bela economia de recursos públicos.

    Ontem foi realizada a segunda conferência sobre comunicação e tecnologia, promovida pelo grupo de pesquisa COMTEC. O evento teve palestras e apresentações de trabalhos selecionados através de um call for papers. Pela manhã, o jornalista e colunista do Estado de São Paulo, Ethevaldo Siqueira brindou a platéia com uma panorâmica da relação das tecnologias com a vida humana, mostrando porque a evolução tecnológica representa tantos desafios para ao sociedade e para a economia. Fazendo um paralelo com a Revolução industrial, Ethevaldo explicou, através da quebra de 15 paradigmas tecnológicos, como a economia ainda carece de entender o papel do desenvolvimento tecnológica na geração de valor.
    Na seqüencia, o professor Luiz Cláudio Martino, da UNB, apresentou uma síntese do seu pensamento em teoria da comunicação, relacionando e buscando entender como a evolução da tecnologias midiáticas reflete na percepção da área de estudo da comunicação. A partir de uma nova conceituação de meios de comunicação, o professor buscou explicar as tecnologias da informação e da comunicação como forma de simulação da consciência.
    Finalizando a parte da manhã, o professor da USP e artista Almir Almas fez uma apresentação sobre a implicação das tecnologias digitais na forma de fazer arte com vídeo e cinema. Apresentando vários vídeos, Almir resumiu as oportunidades criadas pelas tecnologias digitais na criatividade artística.

    De tarde foram realizados dois painéis com apresentações de trabalhos sobre Desafios das Mídias Digitais. A apresentação dos 14 trabalhos aprovados foi divida em duas salas. Eu coordenei a sala sobre TV digital. Os trabalhos focaram processo de implantação, interatividade e possibilidades da tecnologia. A qualidade dos trabalhos pôde ser constatada pela discussão que causaram após a apresentação, com polêmicas que giraram tanto em torno da viabilidade da interatividade, quanto das políticas públicas para inclusão digital, implantação da rádio digital e progressos do SBTVD.
    Resumindo: para quem pôde participar, foi um dia de aprendizado intenso e de reflexões sobre nosso papel na construção do conhecimento e na inovação inerente à TV digital interativa. Que venha a terceira conferência…

Finalmente será lançado um dos livros mais aguardados sobre o processo de implantação da TV digital brasileira. TV Digital no Brasil: tecnologia versus política, do jornalista Renato Cruz, será lançado na próxima segunda-feira, dia 24, as 19 horas, na livraria FNAC da Avenida Paulista. O livro é fruto de anos de trabalho do Renato, incluindo suas coberturas no Estado de São Paulo e da tese de doutorado defendida na Escola de Comunicação e Artes da USP. Vale a pena conferir.

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    O post anterior, sobre as dúvidas com que a TV digital completa um ano, tem gerado mais discussões do que eu esperava. Vou tentar explicar melhor. Como bem colocou o leitor André, uma coisa é a implantação e outra é a recepção da tecnologia por parte da população.
    Durante todas as pesquisas do SBTVD, o projeto estava sob fogo cruzado da mídia, com argumentos que rejeitavam a “reinvenção da roda” e salientavam que o Brasil era incapaz de produzir algo bom que não fosse banana ou jabuticaba. Acabado o projeto, o sucesso foi absoluto, como demonstraram os pesquisadores ao colocarem o sinal do SBTVD no ar, na USP, em dezembro de 2005. Mostrou-se que o país tinha condições de desenvolver tecnologia, e que o projeto tinha gerado um conhecimento inestimado até então. Além disso, as idéias de parte do governo federal para usar a TV digital como forma de inclusão digital despertaram o imaginário de todos os envolvidos no assunto: alguns defendendo a idéia e outros radicalmente contra.
    Essa celeuma gerou um destaque na imprensa e em parte da população. Como o projeto estava indo bem, todos os problemas sociais seriam resolvidos. Não raros “intelectuais” profetizaram a internet na televisão, ou o fim da televisão, pois digital era igual internet. Esses ativistas digitais continuam a falar, contaminando as discussões sérias sobre o assunto, como por exemplo, uma análise criteriosa dos sucessos e fracassos da implantação.
    Se comparada com outras países, a TV digital brasileira está muito a frente do que estava a TV digital nos EUA, Europa e Japão após o primeiro ano. Tem mais cobertura e mais gente assistindo. É fato. Mas como o assunto gerou um expectativa gigantesca de melhora, coisa que não depende da tecnologia, e sim do conteúdo transmitido, há críticas bem fundamentadas de que a transmissão começou cedo demais e sem o devido planejamento.
    Enfim, o sucesso ou o fracasso depende do ponto de partida para a leitura. Se olharmos para a transmissão e recepção, não há semelhantes no mundo que tiveram o mesmo êxito. Se olharmos para a quantidade da programação em alta definição, ou mesmo para a qualidade subjetiva dessa programação, tem atrações que são de chorar.
    Um tema que está permeando as notícias neste final de sobre a TV digital, além do negativismo de sempre da imprensa sobre o processo de implantação, é a falta de informação sobre TV digital e interatividade. Muitas pessoas próximas ou mesmo participando do processo de condução da implantação desconhecem as normas técnicas da ABNT, e não acompanham os esforços para levar o sinal digital a outras cidades. Fora do círculo de implantação da tecnologia, a TV digital raramente é vista como algo além da caixa receptora, gerando dúvidas sobre que aparelho de televisão comprar agora.
    Fiz algumas pesquisas informais nas últimas semanas buscando entender o que as pessoas estão pensando em relação à TV digital. A maioria das pessoas com as quais conversei trabalham com tecnologia e têm relação o setor audiovisual. Logo, devem ter um bom conhecimento sobre o tema. Ou deveriam ter… De maneira geral, a TV digital é vista como uma melhora da qualidade da imagem, com qualidade de DVD ou alta definição. A maioria jamais viu uma imagem HD para ter uma base de comparação. Interatividade é algo parecido com pôr a internet na TV. Já a implantação está atrasada e foi mal feita, pois as pessoas não tem TV digital.
    A percepção sobre a qualidade do sinal está próxima da realidade. Já o conhecimento sobre interatividade e de como a TV digital está sendo implantada estão mais próximas da mitologia do que da realidade. Essa desinformação tem algumas causas bem conhecidas:
    1. Expectativas em excesso antes da implantação. Todos os setores envolvidos na definição do SBTVD venderam a idéia de que a nova tecnologia era mágica (não do ponto de vista artístico), que resolveria problemas e geraria valor para toda população. O modelo regulatório e as estratégias de mercado para a migração analógico/digital foram postergados.
    2. Divulgação insuficiente. A campanha da Família Nascimento, levada ao ar pela emissoras de TV no lançamento da TV digital, confundiu mais do que esclareceu. Durante as pesquisas foi vendida a idéia de que a TV digital poderia servir para a inclusão digital; na campanha de divulgação, nada disso foi abordado e a justificativa ou explicação sobre a mudança dos rumos jamais foi apresentada.
    3. Confusões sobre o funcionamento da tecnologia digital. Como conseqüência da falta de informações, muita gente comprou set top boxes, e ao chegar em casa, viu uma mensagem de “sem sinal”. A transmissão digital difere drasticamente da analógica, e a manutenção da qualidade do sinal tem como lado negativo a falta de sinal em algumas regiões. Um set top box não é igual a um computador ou um celular, que basta estar ligado para funcionar. A imagem perfeita da TV digital depende do sinal chegar perfeito na antena.
    4. Ausência de conteúdo em alta definição. A TV digital estreou com alta definição, mas 90% do conteúdo transmitido foi captado em definição standart, no formato 4X3 e as veses, 16X9. Poucos programas são realmente gerados em HD. Apesar do sinal digital da TV aberta ser muito melhor do que o analógico, a alta definição traz experiências novas e compreensíveis apenas para quem viu uma imagem assim. Converter um sinal captado em 4X3, com 480 linhas, para um sinal HD, com 1080 linhas e com barras pretas nos dois lados, é um desperdício de tecnologia e de investimento nos sistemas de transmissão.

    Esses mesmos erros estão sendo repetidos agora, com a definição da interatividade. Já estão a venda há alguns meses set top boxes com Ginga. Todos fora da norma e que não irão funcionar quando as emissoras colocarem o sistema no ar para valer. Quem já comprou set top box, com poucas exceções, terá que comprar outro se quiser interatividade no ano que vem.
    Pelo menos em relação ao conteúdo interativo a ser oferecido, o cenário é mais otimista, mas nem um pouco tranquilo. Algumas empresas estão investindo pesado no desenvolvimento e na criação de conteúdos novos para a interatividade, mas a maioria continua sem saber por onde começar. Existem projetos muito ousados em algumas redes de televisão, que podem suprir a demanda reprimida e, novamente, as enormas expectativas que estão sendo criadas em torno do assunto. Apesar disso, assim que a interatividade for lançada, aparecerão várias manchetes de jornal afirmando que não era nada disso que tinha sido prometido. E não vai ser mesmo, pois a implantação de qualquer tecnologia não acontece da noite para o dia. Demanda tempo e ajustes…
    Enfim, o Fórum do SBTVD tem um gigantesco problema pela frente, pois se depender apenas de iniciativas isoladas de algumas empresas, as pessoas ainda irão demorar para migrar, apesar da qualidade e alcance do sinal e das possibilidades da interatividade.

Amanhã começa mais uma edição do curso de Ginga-NCL e Lua promovido pela ITV Produções Interativas em parceria com a PUC-Rio. Este curso surpreendeu pela procura, com todas as 25 vagas preenchidas duas semanas antes da realização do mesmo. Ainda ficaram 11 pessoa em fila de espera. O próximo curso na cidade de São Paulo deve ocorrer em fevereiro ou março do ano que vem. Antes disso, a ITV está planejando a realização de um curso em Curitiba e Manaus. A data depende de parcerias para locação de laboratório.
Bom curso a todos nesta semana.

    Como primeiro post deste blog, vou abordar as ferramentas de teste para aplicativos Ginga-NCL e trazer uma novidade que a PUC-Rio estará lançando nos próximos dias. O professor Luiz Fernando pretende facilitar os testes e integrar os aplicativos desenvolvidos em editores XML ou Eclipse ao sinal digital 1-Seg que está no ar em seis capitais brasileiras.

    Atualmente, desenvolver aplicações já é corriqueiro para muitos profissionais de empresas relacionados ao audiovisual e ao software. No entanto, testar essas aplicações ainda é um problema. Existem várias ferramentas disponíveis no site do NCL, que dão um feedback interessante, mas não preciso. O problema surge quando as aplicações testadas nessas ferramentas são embarcadas em set top boxes de mercado com Ginga. Diferenças de implementação (nem as ferramentas de teste, nem os set top boxes estão 100% compatíveis com a norma), limitações na memória (no PC praticamente não existe limitação de memória, enquanto que no set top box o processador é muito mais limitado e a memória bem menor) e diferenças de operação (pela primeira vez o controle remoto será real e não emulado), fazem com que os aplicativos rodem de maneira diferente do projeto, ou sequem são executados.

    No site do NCL existem basicamente três ferramentas de teste: o emulador Ginga-NCL para Windows; a máquina virtual, também para Windows, e uma versão em C para Linux Fedora. O emulador é muito interessante para obter uma primeira versão da interface e de como a aplicação está ficando. Mas é extremamente limitado: não suporta transparência, tem poucas funções implementadas e trava a medida que mais mídias forem adicionadas. Quando esses problemas começam a implicar na qualidade do desenvolvimento, a máquina virtual que emula um linux Fedora no Windows, ajuda, mas já aparecem incompatibilidades: links que funcionam no emulador não funcionam na VM. A versão para linux Fedora disponibilizada em C é mais coerente com a norma, mas ainda incompleta. O problema dessa ferramenta é a complexidade para instalação, pois demanda conhecimento avançados em sistema linux para a configuração.

    Para resolver, ou minimizar esses problemas, a PUC-Rio lançará nos próximos dias um CD bootável, que uma vez inicializado, tem todos os recursos dessa emulador, em linux. Será necessário apenas configurar os periféricos do computador, como teclado, tela etc. Além disso, essa versão é compatível com os pen drives no mercado que recebem o sinal 1-Seg do ar. Portanto, será possível redimensionar o sinal de uma emissora no ar, fazendo testes de interface e de desempenho próximos à realidade. Mantendo apenas a ressalva de que a aplicação estará rodando em um computador, que não tem as limitações de processamento, memória e dispositivos de entrada e saída de um set top box real. Resumindo: vai ajudar e melhorar muito, mas não vai resolver o problema de ter que testar a aplicação em um set top box antes de colocar no gerador de carrossel.

Use a seção comentários, acima deste texto, para trazer temas ainda não discutidos neste blog. Na medida do possível, os comentários serão respondidos individualmente, ou agrupados em tópicos novos na categoria Informação, acessível pelo menu ao lado. Acesse diretamente este espaço no menu categoria ao lado.

Caros eventuais futuros leitores:
Depois de muitos amigos e alunos (na verdade nem tantos assim) insistirem na idéia de lançar um blog para aproximar os debates e trazer discussões novas ao mundo da interatividade, finalmente estou lançando o mesmo, que terá co-autoria do meu amigo e sócio Günter.

O objetivo deste espaço é discutir questões relacionadas à interatividade e ao mundo de tecnologias que envolvem a TV digital de maneira bem ampla. Convido meu alunos da Metodista, da Faap, da ITV Produções Interativas e quem se interessar pelo tema a responder, comentar e questionar os temas aqui abordados. Além disso, sugiro que tragam novos temas no espaço “Debate”.