O momento é de reflexão e de espera no mercado da interatividade, acompanhado de muito otimismo. Após os primeiros produtos terem sido lançados, o que foi comemorado por toda cadeia de valor, surgem dúvidas quanto aos modelos de exploração comercial dos novos recursos. Há uma certeza de que o mercado irá se consolidar aos poucos, num processo de desenvolvimento comercial lento e constante, semelhante ao que ocorreu com a internet.
O mercado da interatividade pode ser dividido hoje em duas linhas: emissoras, oferecendo conteúdo para os telespectadores, e empresas de software, oferecendo o middleware Ginga e dando suporte para as emissoras desenvolverem a interatividade. Ambos precisam caminhar juntos. A demanda gerada pelos equipamentos precisa ser atendida com conteúdos adequados. O mesmo é válido para os conteúdos transmitidos pelas emissoras, que precisam ser recebidos corretamente pelos telespectadores.
Nas emissoras de televisão, o momento é de análise dos testes feitos ao longo dos últimos anos e de estudo sobre as melhoras formas de oferecer a interatividade. Esses estudos incluem os modelos de negócio, ou seja, como comercializar as aplicações interativas. Existem muitos modelos, mas ainda nenhum aceito ou com provas de que funciona. “O modelo de negócio para a interatividade não está formatado ainda. Como somos pioneiros, não existe a possibilidade de copiar isso de outro país. Temos que criar e testar um modelo novo”, afirma Frederico Nogueira, vice-presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação.
Raciocínio semelhante é aplicado por Ricardo Esturaro, diretor de planejamento comercial da TV Globo, aos modelos comerciais da interatividade na TV por assinatura. “Na TV paga a interatividade é um serviço, onde tanto faz se o cara está assistindo o canal A, B ou C, ou interagindo. Ele está usando um serviço oferecido pela operadora. Em TV aberta, de massa, é mais complicado”.
Por isso, a TV Globo trata com muito cuidado o oferecimento de aplicações em larga escala e o consequente modelo de comercialização da interatividade. Ricardo cita como exemplo programas da emissora, como o Big Brother Brasil, que chegou a derrubar os sistemas de telefonia e travar o acesso à internet por causa do alto número de pessoas querendo votar.
Por isso, a responsabilidade é fundamental. “Uma coisa é falar com 100 mil domicílios. Outra é estimular a interatividade em 50 milhões de receptores, usando canal de retorno”, afirma Ricardo, lembrando que se a interatividade der um problema ou travar, “o telespectador não volta mais”.
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Valores
E quanto vai custar a publicidade na interatividade? “Definir valores é um aprendizado. Ainda não temos a resposta”, afirma Roberto Franco. Ele explica que existem várias formas de atribuir valores, como a audiência do portal ou a atenção que o anúncio despertar. “No início da implantação comercial nós vamos nos basear em planos de eventos, em parcerias, onde é preciso negociar, entender o cliente, a ferramenta, para então definir o valor. E com o passar do tempo, essas práticas vão virar padrões, e depois você vai ter um padrão de comercialização único”.
Para Ricardo Esturaro, da Globo, o modelo comercial virá quando a interatividade despertar a audiência e gerar boas experiência de interação. Hoje não existe nem uma coisa, nem outra. “A hora em que a população estiver preparada para receber aplicações, e pronta para experimentar a interatividade, virão os modelos econômicos”, afirma. Raymundo Barros, diretor de engenharia da TV Globo de São Paulo, completa afirmando que atualmente existem aproximadamente 150 mil receptores interativos comercializados, somando celulares, TVs e set top boxes. “Para a escala que opera uma emissora como a Globo, isso é uma absoluta irrelevância. Não é possível desenvolver modelo de negócio em cima desse número”, explica. Ou seja, só depois de criada a escala a emissora pretende pensar em valores.
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Fora das emissoras de televisão esse assunto também está sendo analisado. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, está desenvolvendo projetos integrando o SMS aos serviços já oferecidos pela internet e que serão adaptados para a televisão. Para evitar problemas de privacidade ao acessar as informações, uma vez que a TV é de uso coletivo, a empresa pretende enviar as informações personalizadas para o celular do cliente, em vez de mostrar na tela da TV.
Edson Kikuchi, Gerente de Publicidade e Propaganda, explica que o banco está desenvolvendo um serviço de consulta ao saldo do FGTS, onde o usuário fornece um número de celular durante a identificação. É este celular que vai receber um SMS com o saldo. “Isso mantém o sigilo”, conclui. Recurso semelhante já é oferecido na internet, onde é possível cadastrar um número de celular e receber todo mês informações sobre os depósitos do fundo de garantia.
Comercialização da banda
Com a digitalização da transmissão da TV surgem outros recursos que podem ser explorados comercialmente. Além de vender espaços dentro da aplicação, é possível comercializar parte da taxa de transmissão da interatividade. Na TV digital a emissora define a taxa de transmissão das aplicações através de um mecanismo chamado carrossel. Através deste recurso, as interatividades são transmitidas ciclicamente. É possível, por exemplo, transmitir serviços de comercio eletrônico, acesso a banco, e-mail, loterias, serviços de saúde, como marcação de consulta, cursos e educação à distância, jogos, tudo sem qualquer relação com a interatividade oferecida pela emissora. Ou seja, uma empresa pode comprar uma parte do carrossel e oferecer qualquer tipo de aplicação.
Esse recurso é olhado com cuidado pelas emissoras de TV. Enquanto a TV Globo afirma que dificilmente vai terceirizar parte do carrossel, outras emissoras estudam essa possibilidade. “Nesse momento é preciso estudar tudo. Inclusive terceirizar uma taxa do carrossel. Como não temos certezas sobre o modelo de negócio, não podemos descartar nada. Neste momento vale testar tudo para ver o que fica de pé e o que não fica”, explica Frederico Nogueira, da Band.
No SBT, tudo que for colocado no ar precisa agregar valor à emissora, seja em prestigio, em audiência ou em faturamento. Roberto Franco explica que prestar serviços geralmente é mais vantajoso do que simplesmente vender uma taxa de bits do carrossel. “Se o SBT oferecer um serviço para o usuário, teremos audiência maior e ainda aumentamos o faturamento. Para alugar o carrossel teria que ser muito vantajoso do ponto de vista econômico. Eu só cederia uma taxa do carrossel se isso me remunerasse muito mais do que outro serviço usando a mesma taxa”.
Além disso, Roberto Franco levanta outro problema: ainda não existe legislação sobre o tema. “Tenho dúvidas sobre a legalidade desse negócio. Antes de investir e definir modelos de comercialização, precisamos ver se isso é legal ou não. A regulamentação do serviço não é muito clara”, explica.
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Pioneirismo
A EITV adotou uma estratégia diferente e ousada no lançamento de produtos. Além de ser líder no mercado de equipamentos de geração de interatividade, com mais de 90 emissoras clientes, a empresa lançou uma versão de Ginga-NCL em parceira com a Proview. Hoje há mais de 20 mil unidades vendidas.
Além disso, a empresa deu suporte ao desenvolvimento de aplicações, permitindo que a interatividade pudesse ser executada pela porta USB do set top box. “Os desenvolvedores de aplicativos não tinham acesso a nenhuma ferramentas real de teste, onde eles pudessem ver o trabalho na tela de uma TV. Até então a única possibilidade era usar computadores com emuladores”, afirma Rodrigo.
Durante o congresso da SET, a empresa vai lançar um set top box com Ginga Full, que vai manter o suporte ao desenvolvimento de aplicações. Além de executar aplicações pela porta USB, o novo receptor vai permitir acessar as interatividade através de uma rede local, o que agiliza os testes. “É uma nova oportunidade para emissoras e desenvolvedores testarem aplicativos Ginga Full, com baixo investimento. Também é bom para comparar implementações de middleware”, explica.
Esse pioneirismo da EITV repercutiu também na Argentina, país que adotou o sistema nipo-brasileiro de TV digital, mas sem a linguagem Java para a interatividade. Buscando incentivar o mercado da interatividade no país, o governo argentino está distribuindo set top boxes gratuitamente à população carente. Parte desses receptores possuem a implementação Ginga-NCL da EITV. “Algumas empresas argentinas nos procuraram para fornecer nosso software. Comercializamos 500 mil licenças para dois grupos que ganharam a licitação do governo”, comemora Rodrigo, que ainda espera mais um pedido para os próximos meses.
Confira a íntegra da reportagem na edição de agosto da Revista Produção Profissional, que está circulando no Congresso da SET e Feira Broadcast & Cable.